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O Evangelho segundo João

04/02/2012

1. INTRODUÇAO
O quarto evangelho é bem diferente dos outros três, chamados de sinóticos. Conforme escreveu Clemente de Alexandria: “Mas, finalmente, percebendo que os fatos externos tinham sido deixados claros no evangelho, sendo estimulado por seus amigos, e inspirado pelo Espírito, compôs um evangelho espiritual”. Mas o que quer dizer evangelho espiritual? Por que João é tão diferente assim dos outros três? Quais são os temas e ênfases deste relato de estilo simples, mas de teologia profunda?

2. QUEM? QUANDO? ONDE? (Autoria, data e lugar de composição)
João, o discípulo a quem Jesus amava (13.23; 19.26; 20.2; 21.7, 20 e 24): a tradição é unânime em atribuir a autoria do quarto evangelho a João, um dos doze. O autor conhecia bem os costumes judaicos, bem como a geografia da Palestina. Os detalhes vívidos de algumas passagens revelam que tratava-se de uma testemunha ocular dos fatos.
Éfeso, aproximadamente 96 AD: não há razão para se duvidar da data e local de escrita deste evangelho. Trata-se de um documento tardio em relação aos demais, composto na cidade de Éfeso, na Ásia Menor e a data mais provável é 96 AD.

3. COMO? Contexto Literário
João difere dos demais evangelhos quanto ao estilo e principalmente quanto ao conteúdo. Vejamos:
a) Percebemos omissões importantes em João, tais como o nascimento de Jesus, o seu batismo, a transfiguração, expulsão de demônios, o discurso no Monte das Oliveiras.
b) Seu estilo e vocabulário são simples, porém teologicamente rico.
c) Ao invés da parábola, forma de ensino preferida dos sinóticos, João se concentra nos longos discursos pontuados por perguntas e objeções dos judeus.
d) A narrativa de João concentra-se em Jerusalém e menciona pelo menos 3 Páscoas. Nos sinóticos lemos apenas sobre uma Páscoa e boa parte da narrativa se passa na Galiléia.
e) Algumas palavras são importantes para João, sendo que raramente aparecem em outro evangelho: vida/vida eterna; crer; sinais, glória/glorificar; verdade/verdadeiro; mundo; luz/trevas. Esta é uma dica importante para compreendermos a teologia de João.
f) Um esboço de João pode ser o seguinte:
a. Prólogo (1.1-18)
b. O livro dos sinais (1.19-12.50)
c. O livro da glória (13.1-20.31) – repare a expressão “sabendo Jesus que havia chegado o tempo”.
d. Epílogo (21.1-15)
O verso chave de João é a conhecida passagem do cap. 3, verso 16.
As perguntas que devemos fazer é se estas diferenças comprometem a historicidade de João e se há contradições entre João e os sinóticos. A resposta é não. A diversidade não significa contradição, mas complementaridade. E nem compromete a historicidade, pois o autor é uma testemunha ocular dos fatos.

4. POR QUE? Contexto teológico.
Para compreendermos a mensagem e o propósito de João, temos que analisar alguns temas e passagens do evangelho.
a) O propósito: está nitidamente declarado em 20.31. Jesus é o Cristo, o Filho de Deus. Quem crê nessa verdade tem vida em seu nome. Ou seja, o propósito é claramente evangelístico. É possível que o autor tivesse em mente esclarecer o público grego sobre heresias de sua época, as quais são tratadas explicitamente em suas cartas, mas sua intenção primordial era evangelística.
b) Mensagem teológica:
a. Contraste entre luz e trevas (3.19; 8.12; 11.9 e 10; 12.35, 46). Há outros contrastes menos freqüentes, mas importantes, tais como carne x Espírito (3. 6 e 6.63) e o mundo de cima x o mundo de baixo (3.31; 8.23). Nos sinóticos, o contraste revelado é entre a era presente e a era futura. Porém, a visão de João se harmoniza com a dos sinóticos, pois ninguém pode ver o Reino de Deus se não nascer de novo, ou seja, do Espírito (3.3-7).
b. A divindade de Jesus. Enquanto a genealogia de Mateus vai até Abraão e a da Lucas até Adão, João começa na eternidade, com a Palavra pré-encarnada, que estava com Deus e era Deus. Além disso, Jesus reivindica para si qualidades próprias de Deus nas famosas passagens “Eu sou” (4.26; 6.35, 41 e 48; 8.12; 8.24, 28 e 58; 10.7; 10.11; 11.25; 14.6; 15.1). João, no entanto, não nos deixa esquecer que Jesus se fez carne e, como homem, sentiu cansaço e sede (4.6 e 7) e chorou (11.35).
c. O relacionamento de Jesus com o Pai. Este é o evangelho que mais contém referências a unidade entre o Pai e Jesus, o Filho (10.30, por exemplo). O Filho dá testemunho do Pai e o Pai dá testemunho do Filho (8. 13-18), o Filho conhece o Pai e o Pai conhece o Filho (10.15), o Filho glorificou o Pai e o Pai glorificou o Filho (8.54; 17. 1-5); o Pai está no Filho e o Filho está no Pai (10.38); aquele que ama o Filho será amado pelo Pai (14.21).
d. Vida eterna. Enquanto os sinóticos tem como tema principal da pregação de Jesus o Reino de Deus, João trata da vida eterna. Esta vida já é uma realidade, embora encontre sua plena realização no futuro (de modo semelhante ao já e o ainda não relativos ao Reino de Deus). As referências são abundantes: 3.14-16; 3.36; 4.13-14; 5.24; 6.26; 6.40, 47, 54; 10.28; 11.25; 17.1-3)
e. Sinais e fé (20.31). João seleciona 7 sinais que Jesus operou para que cressem que Ele é o Cristo. Porém, o elogio maior está reservado para aqueles que não viram os sinais e creram (20.29).
f. Glória. Nos sinóticos, a glória de Jesus é revelada na sua transfiguração, mas em João é revelada em todo o seu ministério desde o início (1.14; 2.11; 11.40). Glorificação em João está associada à morte e humilhação de Jesus (12.23; 13.31 e 32; 17.1)
g. Conhecimento da verdade e do que é verdadeiro. Não se trata apenas de uma ideia, mas relaciona-se com a verdade para a salvação (1.14, 17) e para a perfeita liberdade (8.32)
i. Lemos em João Jesus afirmando repetidas vezes “Digo-lhes a verdade” (1.51; 3.3, 5; 5.19; 6.32, 53; 8.34; 10.7; 12.24; 13.16; 14.12; 21.18).
ii. Em João 14.6, temos a famosa declaração: Eu sou a verdade.
iii. O evangelista também se preocupa em afirmar o que é verdadeiro: verdadeira luz (1.9); verdadeiros adoradores e verdadeira adoração (4. 23 e 24); verdadeiro pão (6.32); verdadeira comida (6.55); verdadeira bebida (6.55); a videira verdadeira (15.1); o Deus verdadeiro (17.3); o testemunho verdadeiro (19.35 e 21.24).
iv. O Espírito Santo é o Espírito da verdade (14.15; 15.26; 16.13)

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From → Novo Testamento

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