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Exegese da poesia hebraica (os salmos)

02/08/2012

O artigo abaixo é de autoria do Pr. Isaias Lobão Pereira Júnior (isaias.jr@uol.com.br) e foi publicado no site monergismo.com. É um bom resumo das principais características da poesia hebraica e das regras para interpretação dos salmos.
O Livro dos Salmos é o maior e talvez o mais amplamente usado livro da Bíblia.
Ele explora o mais profundo da experiência humana de uma forma muito pessoal e prática. Seus 150 “cânticos” permeiam da Criação aos períodos patriarcal, teocrático, monárquico, exílico e pós-exílico.
A tremenda amplitude do tema nos Salmos inclui diversos tópicos, tais como
júbilo, guerra, paz, culto, juízo, profecia messiânica, louvor e lamentação. Os Salmos eram entoados como o acompanhamento de instrumentos de corda e serviram como hinário do templo e guia devocional para o povo judeu.
O Livro dos Salmos foi gradualmente colecionado e originalmente intitulado,
talvez devido à grande variedade de material. Ele veio a ser conhecido como Sepher Tehillim – “Livro dos Louvores” – em virtude de quase todo salmo conter alguma nota de louvor a Deus. A Septuaginta (LXX) usa a palavra grega Psalmoi como título para este livro, significando poemas entoados com acompanhamento de instrumentos musicais. Ele também é chamado Psalterium (coleção de cânticos), e esta palavra é a base para o termo “Saltério”. O título latino é Liber Psalmorum, “Livro de Salmos”.

A literatura que abrange o Livro dos Salmos é extensa, mas cabe aqui apresentar algumas referências. Em português temos os comentários de Agostinho publicados pela Editora Paulus, em dois volumes, a partir do original em latim. Martinho Lutero tem seus comentários publicados pela editora Sinodal. Calvino está sendo traduzido pela editora Paraclétos, a partir da excelente edição inglesa, porém com referências as versões francesa e latina. Além, é claro, da erudição moderna. Dentro da perspectiva que estamos
adotando, temos C. S. Lewis (Reflections on the Psalms) e Philip Yancey (A Bíblia que Jesus lia). Mesmo que este livro de Yancey não seja um comentário acadêmico sobre os Salmos é uma boa introdução ao tema, feita pelo afamado colunista da revista Christianity Today.

Uma apreciação dos princípios e da estrutura da poesia hebraica é essencial para a compreensão apropriada dos Salmos e sua interpretação. Também se torna necessária para perceber que aquilo que o Ocidente consagrou como poesia tem pouca semelhança com aquilo que os hebreus entendiam com o vocábulo. A poesia hebraica teve grande popularidade em todo o antigo Oriente Próximo. Numerosos exemplos desse gênero literário chegaram até nós de Canaã (cujos músicos e cantores tinham fama internacional) bem como do Egito e da Mesopotâmia. É evidente a contribuição que, nesse sentido, Israel deu ao mundo cultural do seu tempo.

Na poesia hebraica não existe a rima, e é exato falar em ritmo do que em métrica na poesia hebraica. Sua característica mais importante é a repetição de idéias, denominada de Paralelismo. Uma idéia é afirmada e, logo em seguida, é novamente expressa com palavras diferentes, sendo que os conceitos das duas linhas se equivalem de forma aproximada.

Foi Robert Lowth, professor de poesia em Oxford, Inglaterra, quem primeiro
chamou a atenção para o princípio fundamental da poesia hebraica. Em seu tratato, De Sacra Poesi Hebraeorum: Praelectiones Academicae de 1753. Os tipos de Paralelismo foram classificados por Lowth em três categorias:

(1) Sinomínico: consiste em expressar duas vezes a mesma idéia com palavras
diferentes, como em Sl 113:7.

Ele levanta do pó o necessitado
E ergue do lixo o pobre. (NVI).

(2) Antitético: é formado pela oposição ou pelo contraste entre duas idéias ou
imagens poéticas, como em Sl 37:21.

Os ímpios tomam emprestado e não devolvem,
Mas os justos dão com generosidade. (NVI).

(3) Sintético: aqui as duas linhas do verso não dizem a mesma coisa, mas antes,
a declaração da primeira linha serve como base sobre a qual a segunda declaração se fundamenta. A relação é a de causa e efeito, como em Sl 19:7-8.

A lei do Senhor é perfeita, e revigora a alma.
Os testemunhos do Senhor são dignos de confiança,
E tornam sábios os inexperientes.
Os preceitos do Senhor são justos,
e dão alegria ao coração.
Os mandamentos do Senhor são límpidos,
e trazem luz aos olhos. (NVI).

Outra característica da poesia hebraica para a qual devemos chamar a atenção é o emprego do arranjo acróstico ou alfabético. Existem nove salmos acrósticos no saltério. São eles: 9-10, 25, 34, 37, 111-112, 119 e 145.
Neste tipo de composição, as linhas ou estrofes iniciam cada uma, com letras em ordem alfabética. Essa técnica, a exemplo do paralelismo, auxiliaria na memorização e no ensino. Isto também pode sugerir-se que o assunto foi tratado de forma completa.

Regras para interpretação dos Salmos:
1. Se houver uma circunstância histórica que determinou a composição de um
Salmo, ela deve ser cuidadosamente estudada. Salmo 3, 32, 51, 63.
2. Elemento psicológico. Estudar o caráter do poeta e o estado de mente que
compôs o cântico.
3. Os Salmos são de vários tipos diferentes.
4. Cada um dos Salmos é caracterizado pela sua forma.
5. Cada um dos Salmos também visa uma determinada função na vida de Israel.
6. Temos que reconhecer os vários padrões dentro dos Salmos.
7. Cada Salmo deve ser lido como uma unidade literária.

Referências Bibliográficas:
CALVINO, João. O livro dos salmos. Trad. Valter Graciano. Martins. São Paulo: Paraclétos, 1999.
LEWIS, C.S. Reflections on the Psalms. New York: Harcourt, Brace, Jovanovich, 1958.
LUTERO, Martinho. Obras selecionadas. São Leopoldo: Sinodal. Porto Alegre: Concórdia. s/d.
PRICHARD, James B. Ancient near eastern texts relating to the Old Testament. 3a. ed. Princeton
University Press. Princeton. 1969.
YANCEY, Philip. A Bíblia que Jesus lia. Trad. Neyd Siqueira. Editora Vida. São Paulo, SP. 2001

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