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O martírio de Policarpo de Esmirna

29/08/2012

Este é um trecho do Livro dos Mártires, de John Foxe (1516-1587), um clássico da literatura cristã, publicado pela Editora Mundo Cristão.

Durante o reinado de Marco Aurélio um grande número dos que professavam a fé em Cristo sofreu crudelíssimos tormentos e castigos. Entre eles estava Policarpo, o digno bispo de Esmirna. Sobre o seu fim e martírio julguei que seria útil legar para a história aquilo que Eusébio declara ter sido extraído de uma certa carta escrita pelos membros da sua própria igreja (de Policarpo) para todos os irmãos espalhados pelo mundo.

Três dias antes de ser preso, enquanto estava orando à noite, ele adormeceu e viu num sonho o seu travesseiro incendiar-se e logo consumir-se no fogo. Acordando em seguida, imediatamente relatou a visão aos circunstantes e profetizou que ele seria queimado vivo por amor de Cristo. Quando as pessoas que andavam à sua procura fecharam-lhe o cerco, ele foi induzido, por amor dos irmãos, a retirar-se para outra aldeia. Para lá, porém, logo foram os perseguidores em seu encalço. E tendo apanhado dois rapazes que moravam na vizinhança, açoitaram um deles até que este os conduziu ao retiro de Policarpo.

Os perseguidores, tendo chegado tarde da noite, descobriram que ele já fora para a cama no alto da casa. Dali, se quisesse, ele poderia ter fugido para o interior de outra casa. Mas recusou-se, dizendo: “Seja feita a vontade do Senhor”. Ao saber que os perseguidores haviam chegado, desceu e dirigiu-lhes a palavra com semblante alegre e agradável, de modo que eles, que nunca o haviam visto, ficaram maravilhados contemplando a sua venerável idade e gravidade e perguntavam-se por que deveriam se preocupar tanto com a captura de um homem tão velho. Ele imediatamente ordenou que uma mesa fosse posta, exortou-os a comer com apetite e pediu que lhe concedessem uma hora para orar sem ser molestado.

Tão repleto estava ele da graça de Deus que os circunstantes ficaram assombrados ao ouvir-lhe as orações e muitos lamentaram que um homem tão venerável e piedoso devesse ser levado à morte. Depois de terminar as orações, nas quais fez menção de todas as pessoas com quem entrara em contacto na vida, pequenas e grandes, nobres e comuns, e de toda a Igreja católica disseminada pelo mundo, chegada a hora de partir, eles o puseram sobre um jumento e o trouxeram para a cidade. Lá Policarpo encontrou-se com o irenarca Herodes e seu pai Nicetes, que, fazendo-o subir para a sua carruagem, puseram-se a exortá-lo dizendo: — Que mal há em dizer “Senhor César” e em oferecer sacrifícios e assim salvar a própria vida? — De início ele ficou em silêncio. Porém, ao ser forçado a falar, disse: — Não agirei de acordo com os seus conselhos. — Quando perceberam que ele não se deixava convencer, dirigiram-lhe palavras grosseiras e logo o empurraram para fora da carruagem de modo que ao descer ele machucou a canela. Todavia, imperturbável como se nada estivesse sofrendo, foi em frente exultante, escoltado pelos guardas, até o estádio. Lá, em meio a um ruído tão forte que poucos conseguiam ouvir alguma coisa, uma voz veio do céu dizendo: — Sê forte, Policarpo, e comporta-te como um homem. — Ninguém viu quem falou, mas muitos ouviram a voz. Quando ele foi trazido ao tribunal, houve um grande tumulto no instante em que a multidão percebeu que Policarpo estava preso. O procônsul perguntou-lhe se ele era Policarpo. Ao ouvir a confirmação, ele o aconselhou a negar a Cristo, dizendo-lhe: — Olhe para si mesmo e tenha pena de sua idade avançada. — E acrescentou muitas outras frases que eles costumam dizer, tais como “Jure pela fortuna de César”, “Arrependa-se” e “Diga: ‘Abaixo os ateus’”.

Então Policarpo, com aspecto grave, contemplando toda a multidão no estádio e acenando-lhe com a mão, emitiu um profundo suspiro e, erguendo os olhos para o céu, disse: — Removam-se os ateus. Então o procônsul insistiu com ele dizendo: — Jure, e eu o porei em liberdade; renegue a Cristo. Respondeu Policarpo: — Há oitenta e seis anos eu O sirvo, e Ele nunca me faltou. Como então blasfemarei meu Rei, que me salvou? O procônsul novamente insistiu: — Jure pela fortuna de César. Respondeu Policarpo: — Uma vez que sempre em vão o senhor se esforça para me fazer jurar pela fortuna de César, como o senhor diz, fingindo ignorar o meu verdadeiro caráter, ouça-me declarar com franqueza o que sou. Eu sou um cristão, e se deseja aprender a doutrina cristã, marque um dia, e então poderá me ouvir.

Ouvindo isso, disse o procônsul: — Tenho feras selvagens. Se não se arrepender, eu o entregarei a elas. — Mande trazê-las — replicou Policarpo — pois para nós o arrependimento é uma atitude ruim quando significa mudar do melhor para o pior, mas é uma atitude boa quando significa uma mudança do mal para o bem.

— Se não se arrepender, domarei você com fogo — disse o procônsul — uma vez que despreza as feras selvagens. Então disse Policarpo: — O senhor me ameaça com um fogo que queima durante uma hora e logo se apaga. Mas o fogo do julgamento futuro e do castigo eterno reservado para os ímpios, esse o senhor ignora. Mas por que está se delongando? Faça tudo o que lhe agradar.

O procônsul mandou o arauto proclamar três vezes no meio do estádio: “Policarpo confessou que é cristão.” Mal essas palavras foram proferidas, toda a multidão, tanto gentios quanto judeus que moravam em Esmirna, com fúria violenta se pôs a gritar: — Este é o doutor da Ásia, o pai dos cristãos e o destruidor dos nossos deuses, que ensinou muitos a não oferecer sacrifícios e a não adorar. — A esta altura pediam ao asiarca Filipe para que soltasse um leão contra Policarpo. Mas ele recusou-se, alegando que havia encerrado o seu espetáculo. Então puseram-se a gritar em uníssono que ele deveria ser queimado vivo. Pois sua visão precisava se cumprir — a visão que ele tivera quando estava orando e viu o seu travesseiro incendiar-se. O povo imediatamente apanhou lenha e outros materiais secos nas oficinas e nos banhos. Nesse serviço os judeus (com sua costumeira maldade) sentiram-se particularmente dispostos a ajudar.

Quando quiseram amarrá-lo na fogueira, disse Policarpo: — Deixem-me como estou. Não é preciso prender-me com pregos, pois aquele que me dá forças para suportar o fogo também me fará permanecer na fogueira sem eu querer fugir. — Assim ele foi amarrado mas não pregado. Disse ele então: — Ó Pai, eu te bendigo por me teres considerado digno de receber o meu prêmio entre os mártires. Assim que ele proferiu a palavra “Amém”, os oficiais acenderam o fogo. A chama, formando uma espécie de arco semelhante à vela enfunada de um barco, envolveu feito um muro o corpo do mártir que estava no meio do fogo não como carne queimando mas sim como ouro e prata sendo purificados na fornalha. Recebemos em nossas narinas um aroma semelhante ao que se evola do incenso ou de alguns outros perfumes preciosos. Finalmente, o povo maldoso, ao perceber que o seu corpo não poderia ser consumido pelo fogo, mandou que o carrasco se aproximasse e nele enterrasse a espada. Imediatamente, uma quantidade tão grande de sangue jorrou que o fogo se extinguiu. Mas o invejoso, maligno e despeitado inimigo do justo procurou um jeito de nos impedir de recolher o pobre corpo. De fato, algumas pessoas sugeriram a Nicetes para procurar o procônsul e pedir-lhe que não entregasse o corpo aos cristãos: — Para evitar — disseram eles — que, abandonando o crucificado, eles passem a adorar a ele. — Isso disseram depois de ouvir as sugestões e argumentos dos judeus, que também nos vigiaram quando queríamos retirar o corpo da fogueira. O centurião, percebendo a malevolência dos judeus, fez colocar o corpo no meio do fogo e queimá-lo. Recolhemos em seguida os seus ossos — mais preciosos que ouro e jóias — e os depositamos num lugar adequado.

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From → História

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