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30/08/2012

1)      INTRODUÇÃO

Os 42 capítulos de Jó são um desdobramento da pergunta “Observaste meu servo Jó?”. Poucas histórias na literatura da experiência humana tem tamanho poder de alargar a mente, cobrar a consciência e expandir a visão como Jó. Todos os que testemunham a reviravolta na vida do justo Jó, ouvem o que se passa nas esferas celestiais, participam do debate entre Jó e seus amigos e se arrepiam com a fala de Deus que sai do redemoinho terão modificadas suas crenças básicas sobre a soberania, justiça e sabedoria divinas, sobre o sofrimento e sobre a integridade humana.[1]

2)      CONTEXTO HISTÓRICO:

Data e autoria:

O livro não nomeia um autor, nem define uma data de composição. Quanto a esta última, há intensos debates entre os estudiosos, cujas conclusões fogem ao propósito de nossos estudos.

É possível, no entanto, saber o período histórico em que se passam os eventos narrados no livro por meio de dois fatos: a riqueza de Jó é medida pelo número de cabeças de gado que possui e pelo número de servos ao seu dispor; ele oficia como sacerdote de seu lar (Jó 1.1-5). Isso coloca o enredo no período patriarcal.

O personagem humano principal:

Jó era um não israelita, provavelmente um edomita. Embora não saibamos a localização exata de Uz, esta cidade não se encontrava dentro dos limites do território israelita.

3)      CONTEXTO LITERÁRIO:

Jó não é uma obra totalmente original. Há precedentes no antigo Oriente Médio que abordam as mesmas questões presentes em Jó[2]. Porém, este tem um nível bem mais elevado de sofisticação tanto na forma literária quanto na profundidade e integridade filosófica.

Estrutura:

i.      Prólogo em prosa (1-2): abre a narrativa, apresenta os personagens principais e o cenário, levanta o problema do sofrimento de Jó e adianta ao leitor o que os personagens não sabem – que trata-se de uma prova de fidelidade

ii.      Diálogos entre Jó e seus amigos (3-31): Lamento de Jó (3); 3 ciclos de diálogos (4-27), nos quais Elifaz, Bildade e Zofar apresentam a sua teologia da retribuição e Jó reage a essa fórmula; o poema sobre a sabedoria (28); o ultimo discurso de Jó (29-31)

iii. Monólogo de Eliú (32-37)

iv. Javé fala (38-42.6)

v. Epílogo em prosa (42.7-17)

Gênero:

Poderia ser uma Teodicéia, ou seja, uma resposta ao problema do mal no mundo, que tenta, de forma lógica, pertinente e coerente, defender que Deus é ao mesmo tempo onipotente, infinito em amor e justo, a despeito da realidade do mal e do sofrimento[3]. Ocorre que não há uma resposta precisa e lógica para o sofrimento humano no livro de Jó. A resposta de Deus é que a resposta está além do alcance da compreensão humana.

Jó se parece mais com um “Debate de Sabedoria”, o que descreveria bem tanto sua forma quanto seu conteúdo. No centro do debate está a questão da fonte da sabedoria.

Jó é ficção ou história verídica?

Não pode haver dúvidas quanto ao fato de que Jó foi um personagem real. Sua história está alicerçada em eventos históricos. No entanto, os diálogos em forma de poesia mostram que houve espaço para criatividade do autor. Vale dizer: Jó existiu, as conversas com seus amigos também; elas são corretas, mas não necessariamente precisas, pois ninguém fala daquele modo, ainda mais em meio ao intenso sofrimento.

4)      CONTEXTO TEOLÓGICO:

Sabedoria:

Segundo Tremper Longman e R. Dillard, no centro do debate em Jó está a questão: quem é sábio? Quem tem a correta percepção sobre o sofrimento?  Enquanto os personagens reivindicam para si a sabedoria, Deus resolve a questão ao final do livro. Observe que Ele não responde a Jó diretamente, mas fala sobre a verdadeira fonte da sabedoria. Como dizem Hill e Whalton, mesmo não obtendo informação suficiente para vindicar a justiça divina, temos o bastante para nos convencer de sua sabedoria benevolente[4].

Satanás:

Aparece no início do livro diante de Deus sugerindo que a bênção induz as pessoas a serem justas apenas por causa do que recebem em troca. Apesar de não aparecer no final do livro, a prosperidade derramada sobre Jó é também uma resposta a ele: Deus continuará a abençoar o justo.

O princípio da retribuição:

“Se você pecar, sofrerá”. Há algo de verdadeiro nessa afirmação. As maldições proferidas como conseqüência da desobediência a Javé mostram que o pecador colherá os frutos de seu pecado. Porém, os amigos de Jó foram além e formularam a seguinte teologia: se você está sofrendo, certamente pecou. Ou seja, todo sofrimento é explicado pelo pecado. É essa distorção que o livro de Jó pretende corrigir. O princípio da retribuição deve ser aceito como uma explicação de quem Deus é (faz prosperar o justo e garante que os ímpios serão punidos). Contudo, não podemos usar o princípio para exigir a ação divina ou para julgar as pessoas.

Sofrimento:

Há três perguntas sobre o sofrimento:

a.  Qual é a sua origem? O livro de Jó não apresenta uma resposta satisfatória, no sentido de que não revela a causa dos sofrimentos individuais.

b. Pessoas inocentes sofrem? Essa questão o livro apresenta e responde. Sabemos desde o início que Jó é justo e como insiste em não ter feito nada para merecer o sofrimento, é forçado a desconfiar da justiça divina.

c. Como agir em meio ao sofrimento? No prólogo vemos um Jó que o aceita e bendiz ao Senhor (1.21). Nos diálogos, vemos que Jó não reprimiu sua hostilidade e sua impaciência, mas dirigiu toda a amargura da sua alma a Deus.

Embora o livro não dê uma resposta definitiva ao problema do sofrimento, ele desautoriza a doutrina da retribuição na forma como entendida pelos amigos de Jó.  O discurso final de Deus mostra que sua justiça deve ser inferida de sua sabedoria. As causas do sofrimento não podem ser coerentemente ou precisamente deduzidas, e ninguém é sábio o suficiente para questionar a justiça divina.

O epílogo põe os pingos nos is. Os amigos de Jó são repreendidos não por acusarem Jó, mas por não falarem adequadamente a respeito de Deus. Mesmo vindicado diante de seus amigos Jó não recebe explicação para seu sofrimento. No entanto, ele responde corretamente a Deus – com submissão e arrependimento. Ao manter sua integridade Jó vindicou a prática divina de fazer o justo prosperar. A justiça divina é vindicada, não pela identificação de uma causa do sofrimento, mas pela demonstração de grande sabedoria.

5)      JÓ E O NT

Jesus é o único sofredor inocente, o único sem pecado. Ele, por vontade própria, ao contrário de Jó, submeteu-se ao sofrimento para o benefício dos pecadores. Que o próprio Senhor tenha recebido e suportado as conseqüências indignas do mal, é uma resposta decisiva a Jó e a todos os Jós da humanidade. A comunidade cristã primitiva via a conexão ente Jó e Jesus e, desse modo, era uma prática comum ler Jó durante a semana da Paixão de Cristo.


[1] Lasor, Willian et alli. Introdução ao Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1999, p. 516.

[2] “Homem e seu Deus”, obra suméria datada de 2000 a.C.; “Ludlul bel Nemeqi”, monólogo acádico do final do segundo milênio; e a “Teodicéia babilônica”, datada de 1000 a.C. aproximadamente.

[3] Grenz, Guretzki e Nordling. Dicionário de Teologia (edição de bolso). São Paulo: Ed. Vida.

[4] Panorama do Antigo Testamento. São Paulo: Ed. Vida, 2006.

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