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A Plenitude do Espírito e as suas implicações na vida cotidiana do crente

09/04/2013

Excelente artigo do Rev. Hermistein Maia sobre o assunto Plenitude do Espírito, publicado em http://www.monergismo.com/textos/pneumatologia/plenitude.htm.

vela“A graça do Espírito é verdadeiramente necessária para tratar do Espírito Santo; não a fim de que possamos falar dele como corresponde – porque isso é impossível – senão para que possamos atravessar este tema sem perigo, dizendo o que está contido nas divinas Escrituras”. – Cirilo de Jerusalém, (c. 315-386), The Catechetical Lectures, XVI.1.[i]A habitação do Espírito em nós, é freqüentemente identificada como uma manifestação sobrenatural e extravagante; todavia, a Palavra nos ensina que a presença do Espírito em nossa vida, tem um sentido eminentemente prático e visível; isto, não por seu aparato simplesmente externo, mas, por nossa perseverança em fazer a vontade de Deus, em seguir os valores eternos registrados nas Escrituras, confessando a Cristo, verbal e vivencialmente, como O Senhor de nossa vida (1Co 12.3). Vejamos agora, de forma didática, como a presença do Espírito se torna evidente em nós.


1. Testemunho Eficiente:

O Espírito nos capacita a testemunhar a Cristo de forma fiel e com poder (At 1.8). Desta maneira, a Igreja não se assombra diante dos obstáculos que muitas vezes tentam fazê-la calar ou mesmo desanimar. Ela vai no poder e sabedoria do Espírito, cumprindo a sua missão imperativa e incondicional de testemunha de Cristo. A Igreja, conforme temos insistido, não pode deixar de dar testemunho, visto que ela “não pode fugir à vocação do seu próprio ser”.[ii] (At 1.8; 4.8-13,31; 6.10/7.55; 9.17-20; 11.21-25; 13.9-12). Como Igreja, somos levados sob a direção do Espírito, de forma irreversível a testemunhar sobre a realidade de Cristo e do poder da Sua graça.


2. Andar no Espírito:

(Rm 8.2,4-6; Gl 5.16,17,25/Ef 5.8-10; 1 Jo 3.24)

O Espírito da vida, conduz-nos à vida e paz. Andar no Espírito significa agir, decidir, planejar e viver sob a direção e controle do Espírito de Cristo, conforme a nossa nova condição de filhos da luz (Ef 5.8).Neste novo contexto de vida, encontramos no Espírito a capacitação para cumprirmos a Lei. A Lei nos mandava cumprir seus preceitos;[iii] o Espírito nos leva a fazê-lo com o coração alegre, libertando-nos, assim, do domínio do pecado e da morte. A Lei revela o nosso pecado, o Espírito demonstra a graça através de nossa obediência. Portanto, andar no Espírito é viver não à revelia da Lei, antes é caminhar em harmonia com a Lei de Deus, que é a “lei da liberdade” (Cf. Tg 1.25; 2.12). É justamente isto a vitória sobre o pecado (Gl 5.1-12,18). “Estar no Espírito significa estar na esfera do reino libertador de Deus, que é mediado pelo Espírito”.[iv] A figura bíblica do “andar” é significativa pois aponta para a nossa realidade diária de caminhar, nos deparando com novas e desafiadoras situações, para as quais o Espírito nos conduzirá de forma segura conforme as Escrituras. A vida no Espírito é portanto, uma aventura integral na qual descobrimos diariamente a riqueza da Palavra e a sua perenidade para cada e nova circunstância de toda a nossa existência. (Sl 119.105). Andar no Espírito aponta para um novo itinerário e, também, para uma nova qualidade de vida. A Palavra de Deus é o Livro que regulamenta os princípios desse caminhar; “O Espírito não nos dirige aparte da Palavra.”[v]


3D-Gota-de-água3. Encher-nos do Espírito:

(Ef 5.18)

“O enchimento do Espírito é essencial à genuína qualidade cristã em nossa vida”, ressalta Jones.[vi] Por sua vez, o conhecimento da vontade de Deus é responsabilizador (Lc 12.47/At 22.14-15). Conforme já comentamos em outro lugar, o fato da vontade de Deus estar revelada nas Escrituras não quer dizer que a Bíblia seja um manual cheio de regrinhas para a nossa vida, através do qual possamos encontrar sempre uma regra explícita para a nossa situação específica. Não. A Bíblia, como temos visto, sendo a fonte e norma de todo o conhecimento e prática cristãs, nos apresenta os princípios de Deus que se adequam a todas as nossas necessidades, em quaisquer épocas e circunstâncias. Todavia, a Bíblia não é um livro mágico, através do qual exercitamos a nossa “sorte espiritual” abrindo-o ao acaso, e procurando saber qual a vontade de Deus para a nossa vida em determinada situação, mediante o texto que o nosso dedo (“sensor espiritual”) apontar. Sem dúvida, precisamos conhecer a vontade de Deus, mas isto fazemos lendo e meditando na Sua Palavra, fazendo-o com discernimento, com entendimento. É isto que Paulo recomenda à Igreja de Éfeso: “…Vede prudentemente como andais, não como néscios, e, sim, como sábios, remindo o tempo, porque os dias são maus. Por esta razão não vos torneis insensatos, mas procurai compreender (Suni/hmi)[vii] qual a vontade (Qe/lhma) do Senhor” (Ef 5.15-17). Paulo estimula a Igreja a usar positivamente a sua capacidade de raciocínio a fim de compreender a vontade de Deus; de aplicar à sua existência os ensinamentos de Deus. Negativamente considerando, podemos dizer que o mesmo princípio de discernimento deve ser aplicado às mensagens que ouvimos com freqüência, a respeito da “vontade de Deus para a nossa vida”. A nossa mente não é um “acessório” descartável de nossa existência, o qual deixamos em casa quando vamos à Igreja, lemos livros, ouvimos mensagens ou simplesmente conversamos sobre aspectos da vida cristã. Deus criou o homem completo a fim de que ele possa, com o auxílio do Espírito Santo, usar todos os recursos que Ele lhe outorgou. Parece-me que, a despeito de todo o nosso zelo, o que nos tem faltado é o “entendimento”, o mesmo conhecimento acurado que também faltara aos judeus. O zelo é algo extremamente importante quando acompanhado de entendimento e motivações corretas (Jo 2.17; At 21.20; Gl 1.14); quando não, pode ser a causa de muitos males e atrocidades. Paulo diz: “Irmãos, a boa vontade do meu coração e a minha súplica a Deus a favor deles é para que sejam salvos. Porque lhes dou testemunho de que eles têm zelo por Deus, porém não com entendimento” (Rm 10,1-2). O nosso desejo de servir a Deus não nos deve tornar presas fáceis de qualquer ensinamento ou doutrina; precisamos cientificar-nos se aquilo que é-nos transmitido procede ou não de Deus. Para este exame, temos as Escrituras Sagradas como fonte de todo conhecimento revelado a respeito de Deus e do que Ele deseja de nós; foi assim que a nobre Igreja de Beréia procedeu ao ouvir Paulo e Silas, ainda que aqueles irmãos tenham recebido a Palavra com avidez, isto não os impediu de examinar[viii] “as Escrituras todos os dias para ver se as cousas eram de fato assim” (At 17.11). Jesus Cristo afirma que aquele que deseja fazer a vontade de Deus deve examinar a doutrina: “Se alguém quiser fazer a vontade (Qe/lhma) dele (Deus), conhecerá a respeito da doutrina (didaxh/), se ela é de Deus” (Jo 7.17). Já na década de 60 do primeiro século encontramos em Colossos vestígios de uma heresia que tentava fundir a simplicidade do Evangelho com especulações filosóficas – caracterizadas por práticas ascéticas – estando estes ensinamentos a prejudicar a Igreja (Cl 2.8, 16,18,20,21). Paulo, acompanhado por Timóteo e Epafras (Cl 1.1; 4.12), escreve aos colossenses, mostrando a supremacia de Cristo sobre todas as coisas (Cl 1.15,19; 2.3,19). Juntamente com o ensino correto, Paulo declara que ele próprio, Timóteo e Epafras estão orando pela Igreja: “… Não cessamos de orar por vós, e de pedir que transbordeis de pleno conhecimento da sua vontade (Qe/lhma), em toda a sabedoria (Sofi/a) e entendimento (Su/nesij)”[ix] (Cl 1.9). “Saúda-vos Epafras que é dentre vós, servo de Cristo Jesus, o qual se esforça sobremaneira, continuamente, por vós, nas orações, para que vos conserveis perfeitos e plenamente convictos em toda a vontade (Qe/lhma) de Deus” (Cl 4.12). Por isso, insistimos, é necessário discernimento para interpretar as doutrinas que nos são transmitidas a fim de saber se são de Deus ou não (Jo 7.17). Portanto, devemos desejar conhecer a vontade de Deus. (Ef 5.17). Paulo orava para que os colossenses “transbordassem” [plhrwqh=te]. A voz passiva, indica aqui a ação de Deus; para que ”Deus encha vocês” deste genuíno conhecimento (Cl 1.9[x]/Cl 4.12/Hb 13.21). O enchimento do Espírito pressupõe o selo e o batismo definitivos do Espírito; por isso mesmo, não se confunde com eles (Ef 1.13; 4.30; 1Co 12.13). O batismo e o selo do Espírito são realidades efetivas para todos os crentes em Cristo;[xi] já o enchimento é um dever de cada cristão que reconhece a sua eleição eterna para a salvação em santificação (Ef 1.4/2Ts 2.13). A idéia expressa em Ef 5.18, é a de ter o Espírito em todas as áreas da nossa vida, de forma plena e abundante. Aqui, quatro observações devem ser feitas:[xii]a) O Verbo “encher” (plhro/w) está no modo imperativo; portanto, o “enchimento” não é algo facultativo ao crente – podendo ou não realizá-lo –, antes, é uma ordem expressa de Deus, consistindo em desobediência voluntária o não esforçar-se por fazê-lo; b) O verbo está no tempo presente, expressando uma ordem imperativa e, também, indicando uma experiência que se renova num processo permanente, contínuo, através do qual vamos, cada vez mais, sendo dominados por Ele, passando a ter a nossa mente, o nosso coração e a nossa vontade – o homem integral –, submetidos ao Espírito. Por isso, podemos interpretar o texto de Ef 5.18, como que Paulo dizendo: “Sede constantemente, momento após momento, controlados pelo Espírito”. Hoekema (1913-1988), observa que, “o imperativo presente ensina-nos que ninguém pode, jamais, reivindicar ter sido cheio do Espírito de uma vez por todas. Estar sendo continuamente cheio do Espírito é, de fato, o desafio de uma vida toda e o desafio de cada dia.”[xiii]c) O verbo está no plural, logo, esta ordem é para todos os cristãos, não apenas para os líderes; todos nós, sem exceção, devemos ser enchidos do Espírito. Aqui temos um mandamento explícito para toda a Igreja – “enchei-vos do Espírito” –, não uma opção de vida cristã para alguns, que pode ser seguida ou não. A ordem bíblica é categórica e para todos os crentes em Cristo.[xiv]d) O verbo está na voz passiva, indicando que o sujeito da ação é passivo; Deus é o autor do enchimento. Notemos contudo, que nesta progressividade espiritual, haverá sempre a participação voluntária do crente que, consciente de suas necessidades espirituais, procurará cada vez mais intensamente submeter-se à influência do Espírito, recorrendo aos recursos fornecidos pelo próprio Deus para o nosso aperfeiçoamento piedoso (2Pe 1.3-4). “O Espírito Santo nos coloca em um relacionamento correto com Deus e as pessoas.”[xv] A seqüência do texto de Efésios nos mostra os frutos práticos e concretos desse “enchimento”. Paulo, portanto, está nos dizendo que a solução para qualquer problema em nossa vida passa pelo enchimento do Espírito; aqui temos um princípio universal para todo e qualquer problema particular: Enchei-vos do Espírito![xvi] A vida cristã tem algo a dizer sobre qualquer área de nossa existência; o Cristianismo não é uma religião das brechas, mas de todas as facetas da vida. Apenas para evidenciar alguns indicativos apresentados por Paulo, mencionamos:


1) Comunhão santa:

(Ef 5.19)

A nossa comunhão não é partidária: contra ou favor do pastor, do Conselho, ou dos Diáconos. É antes, gerada pelo Espírito, manifestando-se numa conversa santa que produz a edificação mútua (Cl 3.16/Ef 4.29; Tt 2.8/Sl 141.3/Cl 3.8). “Quando o Espírito de Deus está presente, os crentes amam-se uns aos outros e não há lutas entre nós, a não ser a luta que cada um tem, por desejar amar cada vez mais”, acentua Spurgeon (1834-1892).[xvii]


musica12) Louvor sincero:

“Os hinos e salmos que são cantados na adoração sãos músicas espirituais, isto é, elas são as músicas do Santo Espírito (Atos 4.25; Ef 5.19).” – Hughes Oliphant Old.[xviii]

O cântico é uma expressão da adoração cristã marcada pela plenitude do Espírito Santo. Mais: A genuína adoração é operada pelo Espírito Santo em nós. O mesmo Espírito que falou através de Davi, inspirando-o a escrever, é o que nos ilumina, na adoração a Deus (At 4.25). “E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito, falando entre vós com salmos [yalmo/j],[xix] entoando e louvando de coração ao Senhor, com hinos [u(/mnoj][xx] e cânticos [%)dh][xxi] espirituais” (Ef 5.18-19).

Essas três palavras empregadas também conjuntamente em Cl 3.16, é difícil, senão impossível de se determinar com precisão a diferença entre elas e estabelecer a sua distinção na adoração cristã, considerando inclusive que elas também eram empregadas no culto pagão.[xxii] Segundo nos parece o que estabelece o contraste da adoração cristã neste texto, é que esta é promovida pelo Espírito Santo, com coração sincero e, como não poderia deixar de ser, de modo espiritual. Portanto, os três termos parecem resumir a variedade e harmonia dos cânticos cristãos sob o impulso e direção do Espírito em fidelidade à Palavra revelada de Deus.

Em Ef 5.18, Paulo faz um contraste entre a embriaguez, ainda que “religiosa”[xxiii]– comportamento habitual entre os pagãos e ainda sobrevivente em alguns círculos da Igreja (Cf. 1Co 11.21) –, que gera a dissolução de todos os bons costumes, devassidão e libertinagem (a)swti/a),[xxiv] e o enchimento do Espírito; portanto, ao invés dos homens procurarem a excitação desenfreada da bebida,[xxv] ou a embriaguez como recurso para fugirem de seus problemas através do entorpecimento de suas mentes, devem buscar o discernimento do Espírito para compreender a vontade de Deus, que deve ser o grande objetivo de nossa existência (Ef 5.17). O enchimento do Espírito exige consciência, não a perda do controle através do exacerbamento da emoção em detrimento da razão. Para que o contraste ficasse bem claro, Paulo não usa para o enchimento do Espírito o verbo “embriagar” – que envolve a diminuição da consciência e dos reflexos, além de ser uma expressão que baratearia por demais a sua mensagem e também, inadequada para se referir à terceira Pessoa da Trindade –, antes nos fala de um enchimento consciente e santamente voluntário. A expressão do Espírito conduz-nos à emoções santas; a emoção mundana limita toda a sua vida ao corpo, substituindo a alegria do Espírito pela intoxicação alcóolica.[xxvi] O cristão, ao contrário, busca o sentido da plenitude da sua existência, na plenitude do Espírito. “Sendo assim cheios com o Espírito, os crentes não somente serão esclarecidos e alegrados, mas também darão jubilosa expressão a seu vivificante conhecimento da vontade de Deus.”[xxvii]

Erroll Hulse comenta:

“O Espírito Santo opera diferentemente. Não exige uma mente vazia; ao contrário, enche e controla a mente. Traz ordem e profundidade ao conhecimento, às afeições e às emoções. (…) O álcool é destruidor dos sentidos, mas o Espírito Santo é construtivo.”[xxviii] “O enchimento do Espírito Santo leva ao aprimoramento e alargamento dos poderes do intelecto e ao discernimento, à melhoria da memória, eficiência na execução do trabalho, ao aquecimento das afeições, ao aumento do zelo, e ao aumento geral do fruto do Espírito, descrito em Gálatas 5.22.”[xxix]

Aliás, Calvino entendia que “os salmos constituem uma expressão muito apropriada da fé reformada”,[xxx] e que “Tudo quanto nos serve de encorajamento, ao nos pormos a buscar a Deus em oração, nos é ensinado neste livro [Salmos].”[xxxi] Portanto, no Livro de Salmos temos um guia seguro para a edificação da Igreja que pode cantá-lo sem correr o risco de proferir heresias melodiosas. “Não existe outro livro onde mais se expressem e magnifiquem as celebrações divinas, seja da liberalidade de Deus sem paralelo em favor de sua Igreja, seja de todas as suas obras. (…) Não há outro livro em que somos mais perfeitamente instruídos na correta maneira de louvar a Deus, ou em que somos mais poderosamente estimulados à realização desse sacro exercício.”[xxxii] Calvino considerava os Salmos como “Uma Anatomia de Todas as Partes da Alma”.[xxxiii] No Prefácio do seu comentário ao Livro de Salmos, diz: “Se a leitura destes meus comentários confere algum benefício à Igreja de Deus como eu obtive vantagem da composição deles, eu não terei nenhuma razão para lamentar por ter empreendido este trabalho.”[xxxiv]

Quanto à questão da música na Igreja, Calvino seguiu de perto o pensamento de Agostinho (354-430) que, nas Confissões, havia dito:

“Quando ouço cantar essas vossas santas palavras com mais piedade e ardor, sinto que o meu espírito também vibra com devoção mais religiosa e ardente do que se fossem cantadas doutro modo. Sinto que todos os afetos da minha alma encontram, na voz e no canto, segundo a diversidade de cada um, as suas próprias modulações, vibrando em razão dum parentesco oculto, para mim desconhecido, que entre eles existe. Mas o deleite da minha carne, ao qual se não deve dar licença de enervar a alma, engana-me muitas vezes. Os sentidos, não querendo colocar-me humildemente atrás da razão, negam-se a acompanhá-la. Só porque, graças à razão, mereceram ser admitidos, já se esforçam por precedê-la e arrastá-la! Deste modo peco sem consentimento, mas advirto depois. “Outras vezes, preocupando-me imoderadamente com este embuste, peco por demasiada severidade. Uso às vezes de tanto rigor que desejaria desterrar meus ouvidos e da própria igreja todas as melodias dos suaves cânticos que ordinariamente costuma acompanhar o saltério de Davi. Nessas ocasiões parece-me que o mais seguro é seguir o costume de Atanásio, bispo de Alexandria. Recordo-me de muitas vezes me terem dito que aquele prelado obrigava o leitor a recitar os salmos com tão diminuta inflexão de voz que mais parecia um leitor que um cantor. “Porém, quando me lembro das lágrimas derramadas ao ouvir os cânticos da vossa Igreja nos primórdios da minha conversão à fé, e ao sentir-me agora atraído, não pela música, mas pelas letras dessas melodias, cantadas em voz límpida e modulação apropriada, reconheço, de novo, a grande utilidade deste costume.”[xxxv]

A seguir, Agostinho relata o seu impasse:

“Assim flutuo entre o perigo do prazer e os salutares efeitos que a experiência nos mostra. Portanto, sem proferir uma sentença irrevogável, inclino-me a aprovar o costume de cantar na Igreja, para que, pelos deleites do ouvido, o espírito, demasiado fraco, se eleve até aos afetos da piedade. Quando, às vezes, a música me sensibiliza mais do que as letras que se cantam, confesso com dor que pequei. Neste caso, por castigo, preferiria não ouvir cantar. Eis em que estado me encontro.”[xxxvi]

Assim, Calvino escreveu:

“Nem, contudo, aqui condenamos a voz ou o canto, senão que antes, muito os recomendamos, desde que acompanhem o afeto da alma. Ora, assim exercitam a mente na cogitação de Deus e a retêm atenta, a qual, como é escorregadia e versátil, facilmente se afrouxa e a variadas direções se distrai, a menos que seja de variados adminículos sustentada. Ademais, como em cada parte de nosso corpo, uma a uma, deva luzir, de certo modo, a glória de Deus, convém especialmente seja a língua, que foi criada peculiarmente para declarar e proclamar o louvor de Deus, adjudicada e devotada a este ministério, quer cantando, quer falando….”.[xxxvii] “E, certamente, se a essa gravidade que convém à vista de Deus e dos anjos haja sido temperado o canto, por um lado, concilia dignidade e graça aos atos sacros, por outro, muito vale para incitar os ânimos ao verdadeiro zelo e ardor de orar. Contudo, impõe-se diligentemente guardar que não estejam os ouvidos mais atentos à melodia que a mente ao sentido espiritual das palavras. […] Aplicada, portanto, esta moderação, dúvida nenhuma há de que seja uma prática muito santa e sadia, da mesma forma que, por outro lado, todos e quaisquer cantos que hão sido compostos apenas para o encanto e o deleite dos ouvidos nem são compatíveis com a majestade da Igreja, nem podem a Deus não desagradarem sobremaneira.”[xxxviii]

Calvino na elaboração do que seria conhecido como Saltério Genebrino, traduziu alguns salmos [Sl 25,36,46,91e 138],[xxxix] valendo-se efetivamente do talento do poeta francês Clément Marot (c. 1496-1544) – que conhecera em Ferrara em 1536[xl] –, e Théodore de Bèze (1519-1605) e, posteriormente recorreu ao precioso trabalho do compositor francês Loys Bourgeois (c.1510-c. 1560) – que adaptou as canções populares e antigos hinos latinos e, também, compôs outras músicas para a métrica dos salmos de Marot[xli]– e Claude Goudimel (1510-1572), que morreu no massacre da noite de São Bartolomeu. O Saltério iniciado por Calvino em 1539, dispunha de 19 salmos; sendo concluído por Bèze (c. 1562).[xlii] Ele tornou-se “um dos livros mais importantes da reforma”,[xliii] tendo um verdadeiro “dom de línguas”, sendo traduzido para o alemão, holandês, italiano, espanhol, boêmio, polonês, latim, hebraico, malaio, tamis, inglês, etc., sendo usado por católicos, luteranos e outras denominações.[xliv]

No Prefácio à edição de 1542 do Saltério Genebrino, Calvino escreveu:

“…. Nós sabemos por experiência que o canto tem grande força e vigor para mover e inflamar os corações dos homens, a fim de invocar e louvar a Deus com um mais veemente e ardente zelo.”[xlv]

Um refugiado que visitou a Igreja de Calvino em Estrasburgo, descreveu emocionado o que viu:

“Todos cantam, homens e mulheres, e é um belo espetáculo. Cada um tem um livro de cânticos nas mãos. (…) Olhando para esse pequeno grupo de exilados, chorei, não de tristeza, mas de alegria, por ouvi-los todos cantando tão sinceramente, enquanto cantavam agradecendo a Deus por tê-los levado a um lugar onde seu nome é glorificado.”[xlvi]

Os salmos tiveram um papel extremamente marcante na formação espiritual dos Reformados, constituindo-se também, em uma de suas grandes demonstrações de fé: Leith comenta que,

“O cântico dos salmos contribuiu para moldar o caráter e a piedade reformada e sua influência dificilmente poderia ser superestimada. Os salmos eram as orações do povo na liturgia de Calvino. Por meio deles, os adoradores respondiam à Palavra de Deus e afirmavam sua confiança, gratidão e lealdade a Deus.”[xlvii] “O cântico de salmos tornou-se essencial para a piedade calvinista. Os protestantes franceses, ao serem levados para a prisão ou para a fogueira, cantavam salmos com tanta veemência que foi proibido por lei cantar salmos e aqueles que persistiam tinham sua língua cortada. O salmo 68 era a Marselhesa huguenote.”[xlviii]

Devemos observar contudo, que os hinos da Igreja não precisam estar limitados ao Livro de Salmos, mesmo reconhecendo o seu indiscutível valor como Palavra inspirada de Deus; além disso, deve ser observado, que muitos dos salmos refletem a expressão de fé dos servos de Deus na Antiga Aliança, que ainda não se plenificara em Cristo, Aquele que selou a Nova Aliança com o Seu próprio sangue.

Todas as partes do culto devem ser a expressão daquilo que cremos, conforme é-nos ensinado nas Escrituras; portanto, é necessário que tenhamos consciência daquilo que falamos, cantamos e ouvimos. O nosso “Amém” não pode se transformar em “vãs repetições”[xlix] desconexas, antes, deve ser fruto da fé e da compreensão do que foi falado e cantado. Deste modo, o culto deve ser compreensível aos participantes a fim de que todos possam fazer ressoar em seus lábios a oração de seus corações: Amém! O apóstolo Paulo enfatiza que o culto deve ser prestado no idioma dos participantes, ou seja; deve ser inteligível (1Co 14.9-11); dirigir o culto de forma não compreensível aos participantes é um ato de desrespeito para com os adoradores; é uma atitude de barbárie.[l]

Calvino (1509-1564), resumiu e aplicou isto, dizendo: “Disto também fica claro que as orações públicas devem ser formuladas não em grego entre os latinos, nem em latim entre os franceses ou ingleses, como até aqui a cada passo se tem feito, mas na fala popular, que possa ser generalizadamente entendida por toda a assembléia, uma vez que, na verdade, importa isso se faça para edificação de toda a Igreja, à qual de um som não compreendido nenhum fruto absolutamente advém.”[li]

Leith comenta:

“Calvino abandonou muitos recursos litúrgicos que não atendiam suficientemente a adoradores disciplinados e comprometidos. O culto calvinista exigia uma congregação disciplinada que sustentasse o diálogo da fé com o mínimo de apoio exterior.”[lii]

Portanto, para nós Calvinistas, soa no mínimo estranho que, enfatizando corretamente como fazemos a centralidade das Escrituras em todas as coisas, sendo a Palavra de Deus a norma de nosso pensar, sentir e atuar, estejamos com demasiada freqüência avaliando o nosso culto pelo grau de entretenimento e prazer concedidos ao “adorador”.[liii] John MacArthur com a sua costumeira veemência, acentua: “…. Não ousemos menosprezar o principal instrumento de evangelismo: a proclamação direta e cristocêntrica da genuína Palavra de Deus. Aqueles que trocam a Palavra por entretenimento ou artifícios descobrirão que não possuem um meio eficaz de alcançar as pessoas com a verdade de Cristo.”[liv] Mais à frente continua: “Os que desejam colocar a dramatização, a música e outros meios mais sutis no lugar da pregação deveriam levar em conta o seguinte: Deus, intencionalmente, escolheu uma mensagem e uma metodologia que a sabedoria deste mundo considera como loucura. O termo grego traduzido por ‘loucura’ [1Co 1.21] é mõria, de onde o idioma inglês tira a sua palavra moronic (imbecil). O instrumento que Deus utiliza para realizar a salvação é, literalmente, imbecil aos olhos da sabedoria humana. Mas é a única estratégia de Deus para proclamar a mensagem.”[lv]

Segundo nos parece, é preciso que estejamos vigilantes para que não caminhemos em direção oposta à satisfação de Deus, ao Seu agrado. A Confissão de Westminster (1647) capta bem isso ao dizer: “… O modo aceitável de adorar o verdadeiro Deus é instituído por Ele mesmo e tão limitado pela sua vontade revelada, que não deve ser adorado segundo imaginações e invenções dos homens ou sugestões de Satanás nem sob qualquer outra maneira não prescrita na Santa Escritura.” (XXI.1).[lvi] Adorar a Deus de modo não prescrito em Sua Palavra é um ato idólatra, pois deste modo, adoramos na realidade a nossa própria vontade e gosto;[lvii] aqui há uma inversão total de valores: em nome de Deus buscamos satisfazer os nossos caprichos e desejos; Deus se tornou um mero instrumento para a expressão de nossa vontade; a lógica dessa atitude é a seguinte: desde que estejamos satisfeitos, descontraídos e leves, é isso o que importa. Quem assim procede, já recebeu a sua recompensa: a satisfação momentânea do seu desejo pecaminoso.

Calvino, comentando a expressão, “Culto racional” (Rm 12.1), diz:

“… Se Deus só é corretamente adorado à medida que regulamos nossas ações pelo prisma de seus mandamentos, então de nada nos valerão todas as demais formas de culto que porventura engendrarmos, as quais ele com toda razão abomina, visto que põe a obediência acima de qualquer sacrifício. [lviii] O ser humano deleita-se com suas próprias invenções e (como diz o apóstolo alhures) com suas vãs exibições de sabedoria; mas aprendemos o que o Juiz celestial declara em oposição a tudo isso, quando nos fala por boca do apóstolo. Ao denominar o culto que Deus ordena de racional, ele repudia tudo quanto contrarie as normas de sua Palavra, como sendo mero esforço insensato, insípido e inconseqüente.” [lix]

O culto a Deus é caracterizado pela submissão às Escrituras: “É dever de todo crente apresentar seu corpo como sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, como indica as Escrituras. Nisto consiste a verdadeira adoração.”[lx]

Calvino (1509-1564), nos adverte quanto à tentativa de adorar a Deus conforme o “senso comum”:

“Pelo que, nada de surpreendente, se o Espírito Santo repudie como degenerescências a todos os cultos inventados pelo arbítrio dos homens, pois que em se tratando dos mistérios celestes, a opinião humanamente concebida, ainda que nem sempre engendre farto amontoado de erros, é, não obstante, a mãe do erro.”[lxi] “O culto que não tem uma distinta referência à Palavra outra coisa não é senão uma corrupção das coisas sacras.”[lxii] “Deus só aceita a aproximação daqueles que o buscam com sincero coração e de maneira correta.”[lxiii]

Comentando o segundo Mandamento, diz:

“Portanto, o fim deste mandamento é que Deus não quer que Seu legítimo culto seja profanado mediante ritos supersticiosos. Pelo que, em síntese, Ele nos recambia e afasta totalmente das insignificantes observâncias materiais que nossa mente bronca, em razão de sua crassitude, costuma inventar quando concebe a Deus. E, daí, nos instrui a Seu legítimo culto, isto é, ao culto espiritual e estabelecido por Si Próprio. Assinala, ademais, o que é mais grosseiro defeito nesta transgressão: a idolatria exterior.”[lxiv]

Segundo Calvino, o problema está no padrão que homem estabelece para Deus: ele O analisa partindo de si mesmo, do seu gosto e preferências, não percebendo o salto qualitativo entre nós, pecadores que somos, e o soberano Deus, o Senhor da Glória. “Os homens se dispõem naturalmente a exibição exterior da religião, e, medindo Deus segundo a própria medida deles, imaginam que alguma atenção para as cerimônias constitui a suma de seu dever.”[lxv]

Antes do povo de Israel entrar na Terra Prometida, Deus o adverte para que não imitem o modelo pagão. Então, Deus o exorta estabelecendo um princípio positivo que deveria seguir: “Tudo o que eu te ordeno, observarás; nada lhe acrescentarás nem diminuirás” (Dt 12.32). Este é o princípio que deve governar todo o nosso relacionamento com Deus: a obediência. O conhecimento de Deus é uma experiência de amor, que se revela em nossa obediência aos Seus mandamentos. Calvino comentando o texto de Deuteronômio diz: “Nesta pequena cláusula Ele ensina que não há outro serviço considerado lícito por Deus a não ser aquele que Ele deu Sua aprovação na Sua Palavra, e que a obediência é a mãe da piedade; é como se Ele tivesse dito que todos os modos de devoção são absurdos e infetados com superstição, quando não são dirigidos por esta regra.”[lxvi] Em outro lugar insiste na necessidade de sermos obedientes a Deus se quisermos apresentar-Lhe um culto agradável: “Deus só é corretamente servido quando sua lei for obedecida. Não se deixa a cada um a liberdade de codificar um sistema de religião ao sabor de sua própria inclinação, senão que o padrão de piedade deve ser tomado da Palavra de Deus.”[lxvii] “Portanto, em nosso curso de ação, deve-se-nos ter em mira esta vontade de Deus que Ele declara em Sua Palavra. Deus requer de nós unicamente isto: o que Ele preceitua. Se intentamos algo contra o Seu preceito, obediência não é; pelo contrário, contumácia e transgressão.”[lxviii]

O culto reflete a nossa maneira de perceber a Palavra de Deus, visto que no culto respondemos com fé em adoração e gratidão a Deus;[lxix] o nosso responder revela a nossa teologia;[lxx] é impossível uma genuína teologia bíblica divorciada de uma adoração bíblica; a chamada “flexibilidade litúrgica” nada mais é do que uma “flexibilidade teológica” que envolverá sempre uma “teologia” de remendos, distante da plenitude da revelação Bíblica, em acordo, quem sabe, com a cultura que nos circunda.

Num documento recente publicado pela Igreja Presbiteriana Ortodoxa, lemos:

“O culto, então, não é algo feito superficialmente ou sem séria consideração. No culto os crentes professam e honram o caráter de Deus, em cuja presença eles entram, e quem os tirou de um estado de pecado e miséria. O culto sempre reflete a concepção que as pessoas têm de Deus. A verdadeira teologia produz um culto verdadeiro e aceitável. A teologia imprópria ou errônea produz falsa adoração. O culto não é uma questão de gosto: é uma declaração de convicção teológica.”[lxxi]

O enchimento do Espírito evidencia-se no louvor a Deus com cânticos, os quais expressam a integridade e biblicidade da nossa fé. Lembremos mais uma vez o contraste feito por Paulo entre a embriaguez dissoluta e a integridade da alegria produzida pelo Espírito, que nos conduz ao conhecimento da vontade de Deus na Palavra. “O conhecimento de Deus não está posto em fria especulação, mas lhe traz consigo o culto”.[lxxii]

A “Palavra de Cristo” deve nos guiar também em nossa adoração (Cl 3.16). O nosso cântico não visa simplesmente ser agradável e, de modo algum, ter um tom de alegria jovial e frívola, antes deve estar repleto de sentimento espiritual, orientado pelo Espírito na Palavra de Cristo.

Insistimos: O culto cristão é sempre na liberdade do Espírito e nos limites registrados pelo Espírtio na Palavra. (Jo 4.23-24; Fp 3.3).[lxxiii] O Espírito que inspirou as Escrituras (2Tm 3.16; 2Pe 1.21)[lxxiv] é o mesmo Espírito que nos selou e nos “enche”. Não há contradição no Espírito; por isso, os limites da nossa experiência espiritual estarão sempre dentro da amplitude bíblica. O que queremos dizer é que: Toda experiência subjetiva com o Espírito tem a sua objetividade na Sua Palavra escrita; ninguém em nome do Espírito pode contrariar a Palavra, que é do Espírito (1Co 12.3). Portanto, o louvor a Deus deve ser sempre dentro dos princípios da revelação bíblica, praticado com o coração sincero (Am 5.21-23). A verdadeira ortodoxia é bíblica e é corretamente vivida: a vida cristã não pode excluir a doutrina nem esta pode perdurar sem aquela.

Toda a criatividade humana deve estar submissa à instituição divina pois, o Deus Trino que é adorado, estabelece os princípios e as normas para este ato; portanto, o que determina a forma do culto, não pode ser um critério puramente estético ou sentimenta;l[lxxv] mas sim, espiritual, teológico e racional.

Por mais impressionante que seja a adoração planejada pelo homem, se ela não for dirigida por Deus, através do Seu Espírito, não será aceita; não passará de uma tentativa de boa obra humana no afã de conseguir o favor divino. O culto ao Senhor não pode ser a nosso bel-prazer, como quis Jeroboão e, também, de certa forma Uzias, pois Deus o rejeita (1Rs 12.33-13.5; 2Cr 26.16-21). Se queremos agradar o Senhor através do Culto somente a Ele devido, devemos procurar saber através da Sua Palavra como Ele deseja ser cultuado…

Na antigüidade, o filósofo Sócrates (469-399 aC.), fez uma pergunta, que revela uma percepção correta: “Haverá culto mais sublime e piedoso que o que prescreve a própria divindade?”[lxxvi]


intimo3) Gratidão a Deus:

(Ef 5.20)

De fato nós não podemos devolver a Deus tudo o que Ele nos têm dado – aliás, nem Ele requer isso de nós –, todavia, podemos e devemos ser-Lhe grato. O reconhecimento do cuidado preservador de Deus e das Suas bênçãos cotidianas, deve se revelar num ato de gratidão a Deus, se manifestando inclusive em meio às adversidades, como um sinal evidente de que temos a vitória por Cristo. (1Ts 5.18/At 16.25; Rm 8.37; 1Co 15.57; 2Co 2.14).

À jovem Igreja de Tessalônica, Paulo orienta: “Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco” (1Ts 5.18).

A expressão “dai graças” é a tradução do verbo grego Eu)xariste/w, que tem o sentido, conforme o traduzido, de “agradecer”. A sua raiz é a mesma do substantivo Eu)xaristi/a (Eucaristia), que pode ser traduzido por “gratidão” (Cf. At 24.3).

Partindo destas observações, concluímos que o ato de dar graças só pode ser verdadeiro se proceder de um coração agradecido.[lxxvii] A vontade de Deus é que Lhe sejamos agradecidos. Por isso, todas as vezes que reconhecemos os feitos de Deus em nossa vida, e Lhe agradecemos por isso, estamos concretizando o “seja feita a Tua vontade”…

A gratidão é a atitude da alma que reconhece a direção de Deus em todos os episódios de sua existência, daí a recomendação paulina: “Em tudo dai graças”. Nesta atitude não há uma senha mágica, um talismã lingüístico, que vise modificar as situações adversas, mas, sim, a expressão sincera de um coração agradecido, que sente-se seguro sob a proteção de Deus (Rm 8.31-39). “Sempre que Deus manifesta sua liberalidade para conosco, também nos encoraja a render-lhe graças; e prossegue agindo em nosso favor de forma semelhante quando vê que somos gratos e cônscios do que ele nos tem feito.”[lxxviii]

Paulo diz que devemos ser imitadores de Deus e, como tais, ao invés de vivermos com conversações torpes, devemos andar em ações de graça (Ef 5.1-4).

A nossa gratidão a Deus é o resultado da certeza de que Ele cuida de nós e que, de fato, não existem eventos casuais, sorte, azar ou fatalismo. Deus é Quem nos guarda! Portanto, em todas as circunstâncias, podemos encontrar motivos para agradecer a Deus, certos de que Ele é o Senhor da história e nada nos acontece sem a permissão governativa de Deus e que tudo o que nos ocorre tem um sentido proveitoso para a expressão de nossa vida: física, psíquica e espiritual. “Sabemos que todas as cousas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Rm 8.28). O “bem” dos filhos de Deus é tornar-se cada vez mais identificado com o seu Senhor (Rm 8.29-30).

Parece-nos que é neste sentido que o salmista testemunha: “Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos” (Sl 119.71).

A pedagogia de Deus, através dos eventos, ultrapassa em muito a nossa capacidade imediata de percepção. Todavia, Deus é o Senhor e Ele nos ensina através da Sua Palavra vivenciada na história.

Daniel quando soube que, por decreto do rei Dario, nenhum homem poderia invocar a Deus durante o prazo de trinta dias, entrou no seu quarto e deu graças a Deus conforme seu reverente costume:[lxxix] “Daniel, pois, quando soube que a escritura estava assinada, entrou em sua casa, e, em cima, no seu quarto, onde havia janelas abertas da banda de Jerusalém, três vezes no dia se punha de joelhos, e orava, e dava graças, diante do seu Deus, como costumava fazer” (Dn 6.10).

Calvino, comentando a respeito da pedagogia das aflições, exorta: “Os homens são incapazes de sentir seus pecados a menos que sejam levados pela força a conhecer-se por si mesmos. Por isso, vendo que a prosperidade nos embriaga de tal maneira, e que quando estamos em paz cada um se adula em seus pecados; temos que sofrer pacientemente as aflições de Deus. Porque a aflição é a autêntica mestra que leva os homens ao arrependimento para que se condenem eles mesmos diante de Deus e, sendo condenados, aprendam a odiar aqueles pecados nos quais anteriormente se banhavam.”[lxxx]

No Novo Testamento, quando Paulo recomenda aos tessalonicenses “em tudo dai graças”, fala a uma jovem igreja perseguida, pressionada em sua incipiente fé. Todavia, ele sabia que a nossa fé amadurece à medida em que conseguimos, pela graça, superar as adversidades dos fatos, reconhecendo a direção bondosa de Deus. Ele mesmo já tivera esta experiência, juntamente com Silas, em Filipos, antes de levar o Evangelho a Tessalônica. Lucas, que testemunhou a prisão de Paulo em Filipos, nos conta: “Por volta da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam louvores a Deus, e os demais companheiros de prisão escutavam” (At 16.25). Esta atitude – que o texto indica que se repetiu por algum tempo – era inusitada e, ao que parece, tão surpreendente aos outros prisioneiros que, conforme registra Lucas, os companheiros de cela se detiveram para ouvir os seus louvores (At 16.25).

Mais tarde, Pedro escreve aos crentes da Dispersão, que sofriam atroz perseguição: “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma cousa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cristo, para que também na revelação da sua glória vos alegreis exultando” (1Pe 4.12-13). O fato é que Deus, mesmo objetivando – como sempre o faz – o melhor para nós, não exclui necessariamente as adversidades, as circunstâncias difíceis e sérias provações.

Assim, meus irmãos, a nossa atitude de ação de graças revela a nossa confiança em Deus, no Seu paternal cuidado; por isso, mesmo sem entendermos o alcance dos fatos, devemos, pela fé, agradecer a Deus: “Dando sempre graças (Eu)xariste/w) por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Ef 5.20).

Analisemos agora algumas das razões que temos para agradecer a Deus. Sem dúvida, todos nós temos motivos para assim fazer; basta que consideremos a nossa saúde, o alimento que nos dá, a nossa casa, família, emprego, etc. Todavia, queremos observar outras razões que a Palavra de Deus nos indica, que devem nos conduzir à gratidão sincera:


a) Por Deus Ser Quem é:

Deus deve ser louvado por aquilo que Ele é. Deus é o Senhor de todas as coisas; a Sua vontade é que Lhe rendamos graças como reconhecimento reverente de Sua majestade e misericórdia manifestas em Seus atos salvadores. O salmista declara: “O Senhor é Deus, Ele é a nossa luz (…). Tu és o meu Deus, render-te-ei graças; tu és o meu Deus, quero exaltar-te. Rendei graças ao Senhor, porque Ele é bom, porque a Sua misericórdia dura para sempre” (Sl 118.27-29).


b) A Bondade e Misericórdia:

O salmista conclama: “Rendei graças ao Senhor, porque Ele é bom, porque a Sua misericórdia dura para sempre” (Sl 118.1= Sl 106.1; 107.1, etc.). Aqui há a compreensão de que toda a nossa relação com Deus baseia-se em Sua misericórdia. Após a destruição de Jerusalém, Jeremias escreve: “As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos porque as suas misericórdias não têm fim” (Lm 3.22). Tudo que somos e temos pode ser resumido na “misericórdia eterna de Deus”, que se compadece de nós e propicia a nossa salvação.

As Escrituras declaram que Deus é benigno e misericordioso para com todos; até para com os ingratos e maus, aos quais Deus manifesta a Sua bondade através da concessão de bênçãos temporais (Vd. Lc 6.35,36).


c) O Seu Socorro:

O socorro de Deus independe de nossa percepção. Deus nos tem guardado, na maioria das vezes, de uma forma misteriosa para nós. Não podemos limitar a nossa gratidão a Deus apenas à nossa percepção dos fatos. O cuidado preventivo de Deus para conosco ultrapassa em muito a nossa consciência. A vontade de Deus é que lhe sejamos agradecidos pela Sua proteção benfazeja.

O salmista, considerando o seu passado, exulta: “O Senhor é a minha força e o meu escudo; nele o meu coração confia, nele fui socorrido; por isso o meu coração exulta, e com o meu cântico o louvarei” (Sl 28.7). “Render-te-ei graças porque me acudiste, e foste a minha salvação” (Sl 118.21).


d) A Firmeza de nossos irmãos:

A vontade de Deus é que nos alegremos com os nossos irmãos na firmeza de sua fé, dando graças a Deus por isso. Devemos orar uns pelos outros, regozijando-nos ao perceber o fortalecimento espiritual de nossos irmãos.

O apóstolo Paulo, em muitas de suas cartas, agradecia a Deus o testemunho fiel da Igreja: “Primeiramente dou graças a meu Deus mediante Jesus Cristo, no tocante a todos vós, porque em todo o mundo é proclamada a vossa fé” (Rm 1.8). “Não cesso de dar graças por vós, fazendo menção de vós nas minhas orações” (Ef 1.16). “Dou graças a meu Deus por tudo que recordo de vós (…), pela vossa cooperação no Evangelho, desde o primeiro dia até agora” (Fp 1.3,5).[lxxxi]

A nossa gratidão a Deus deve se revelar num ato de proclamação da Sua grandeza e de Seus poderosos feitos. A vontade de Deus é que proclamemos com gratidão os Seus atos redentores. Os salmistas assim procedem: “Graças te rendemos, ó Deus; graças te rendemos, e invocamos o teu nome, e declaramos as tuas maravilhas” (Sl 75.1). “Rendei graças ao Senhor, invocai o seu nome, fazei conhecidos, entre os povos, os seus feitos” (Sl 105.1).

Em nosso desejo de servir, estamos com freqüência dispostos a indicar, para os nossos amigos, profissionais e lojas que nos atenderam bem, falamos de determinada promoção ou de um remédio que foi “valioso” para nós ou para algum parente… No entanto, amiúde nos esquecemos de proclamar as “maravilhas” de Deus aos pecadores, e mesmo aos nossos irmãos, para a edificação recíproca de nossa fé.

A nossa palavra e a nossa vida devem ser expressões de agradecimento a Deus; todas as nossas atitudes devem refletir este espírito. É justamente isto que Paulo recomenda aos colossenses: “E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai” (Cl 3.17).

Deus nos convida a uma dignificação de nossas tarefas, através de um coração agradecido que metamorfoseia tudo o que fazemos. Um coração agradecido a Deus se manifesta em nosso comportamento, em nosso trabalho, em todas as nossas relações. Contudo, nós somos agradecidos, não por isso mas porque o Senhor é o nosso Deus; o Deus cuja bondade e misericórdia permanecem de geração em geração; e nós a temos experimentado.

Um outro aspecto que deve ser analisado é que as nossas orações também devem ser agradecidas. Paulo, preso, escreve a uma Igreja que também passava por tribulações (Fp 1.29): “Não andeis ansiosos de cousa alguma; em tudo, porém, sejam conhecidas diante de Deus as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graça” (Fp 4.6. Vd. Cl 4.2). Paulo, aqui, não combate a ansiedade puramente com argumentos; ele nos desafia a canalizar as nossas energias não para um sentimento inoperante e destrutivo, mas para oração com ações de graça. A oração oferece-nos um abrigo onde podemos nos ocultar das preocupações mundanas, um lugar onde ficamos a sós com Deus, um refúgio onde renovamos a esperança, onde nossos cuidados, expostos a Deus, ficam amortecidos e renovamos a nossa confiança em Deus…

A prática da oração, acompanhada de ação de graças deve ser exercitada a fim de nos aperfeiçoarmos nela como resultado de nossa maturidade espiritual. “Ora, como recebestes a Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele, nele radicados e edificados e confirmados na fé, tal como fostes instruídos, crescendo em ações de graça” (Cl 2.7,8).


4) Submissão humilde no temor de Cristo:

(Ef 5.21)

O crente cheio do Espírito revela esta realidade não apenas no seu relacionamento com Deus mas, também, com o seu próximo. O crente cheio do Espírito está pronto para o serviço em humildade, sem pretensões de grandeza ou de honra, tendo como princípio orientador do seu comportamento, o “temor de Cristo”, sabendo que tudo o que somos e temos provém de Deus (1Co 4.7; 15.10; 2Co 3.5; 2Pe 1.3). Isto significa que uma Igreja cheia do Espírito não é regida pela disputa de cargos, honrarias, individualismo ou vanglória; isto porque há a consciência de que todos servem uns aos outros para a Glória de Deus e o aperfeiçoamento dos santos (Mt 18.1-4; 20.28; Rm 12.10; Ef 4.2,3,11-16; Fp 2.3; 1Pe 5.5).

Um exemplo negativo daqueles que se julgavam “espirituais”, encontramos em Corinto, onde grassava arrogância espiritual, facções, e imoralidade (1Co 1.11,12; 3.1-9; 11.17-22; 14.26-33). A alegação espiritual dos coríntios não correspondia à sua prática de vida; no entanto, revelava a fragilidade e imaturidade de sua fé.

O princípio expresso por Paulo no texto de Efésios, é desenvolvido nos versículos seguintes. Ele mostra que esta submissão humilde no temor de Cristo deve se objetivar do seguinte modo:


4.1. Na Vida Familiar:

Como uma das evidências da importância que Paulo confere à família, encontramos em uma de suas analogias referindo-se à Igreja, dizendo ser ela a “família de Deus” (Ef 2.18), composta por judeus e gentios.

A família sem dúvida é o fundamento de qualquer sociedade; quando ela se destroça a sociedade também o faz. Se formos examinar com algum vagar, poderemos constatar que a grande maioria dos delinqüentes provém de lares destruídos ou em processo de destruição. Hendriksen (1900-1982), acertadamente diz: “Nenhuma instituição sobre a face da terra é tão sagrada quanto a família. Nenhuma é tão básica. Segundo a atmosfera moral e religiosa da família, assim será na igreja, na nação e na sociedade em geral.”[lxxxii]

Partamos do princípio: O casamento entre um homem e uma mulher, foi o meio instituído por Deus para a formação da família. No Livro de Gênesis, vemos que os seres criados por Deus (peixes, aves, animais domésticos, animais selváticos, etc.) o foram conforme as suas respectivas espécies. O homem, diferentemente, teve o seu modelo no próprio Deus Criador (Gn 1.26; Ef 4.24), sendo distinto assim, de todo o resto da criação, partilhando com Deus de uma identidade desconhecida por todas as outras criaturas, visto que somente o homem foi criado “à imagem e semelhança de Deus”. Por isso, quando se trata de encontrar uma companheira para o homem com a qual ele possa se relacionar de forma pessoal – já que não se acha em todo o resto da criação –, a solução é uma nova criação, tirada da costela de Adão e, transformada por Deus em uma auxiliadora idônea, com a qual Adão se completará,[lxxxiii] passando a haver uma “fusão interpessoal”, constituindo-se os dois uma só carne (Gn 2.20-24; Mc 10.8), unidos por Deus (Mt 19.6). Deus como uma espécie de “pai da noiva”[lxxxiv] (“padrinho de casamento”), leva-a até o noivo (Gn 2.22).[lxxxv] Agora tornou-se possível uma relação satisfatória para o homem e, ao mesmo tempo, eles – homem e mulher – poderão se perpetuar através da procriação – como ato que reflete a sua identidade de amor e complemento –, enchendo a terra e sujeitando-a, conforme a ordem divina (Gn 1.28).

Palmer Robertson comenta: “O ‘ser uma só carne’ descrito nas Escrituras não se refere simplesmente aos vários momentos da consumação marital. Em vez disto, esta unidade descreve a condição permanente de união alcançada pelo casamento.”[lxxxvi]

Com a queda de nossos primeiros pais, resultado da sua rebelde desobediência, houve a separação entre o homem, agora pecador, e o Deus Santo, Justo, Puro e Sublime (Is 59.2). Com isso, toda a criação sofreu as conseqüências, se deteriorando todas as relações, a começar entre o homem e Deus… Em decorrência, a família começa a se degenerar: Adão, racionalizando o seu pecado, acusa Eva e indiretamente a Deus; entre seus filhos, o primogênito Caim – a quem Eva saúda como um varão que adquiriu “com o auxílio do Senhor” –, mata o seu próprio irmão e agora, ainda desobedecendo a Deus, não passa a ter uma vida errante, contudo, é obrigado a viver longe de seus pais (Gn 4.16).

A redenção em Cristo restabelece todas as relações e, o Espírito Santo, a terceira pessoa da Trindade está diretamente relacionado a isso. Paulo faz uma conexão direta entre o enchimento do Espírito e o relacionamento familiar.


a) Submissão e respeito por parte das esposas:
(Ef 5.22-24,33)

Paulo não dispondo de um exemplo melhor para falar da união matrimonial, recorre, inspirado por Deus, à relação mais sublime de todas, a de Cristo com a Sua Igreja; ele usa um argumento dedutivo, partindo do maior para o menor: se Cristo assim se relaciona com a Igreja, esta tem a sua responsabilidade para com o Seu Senhor; do mesmo modo, conclui Paulo, há responsabilidade recíproca entre os maridos e as esposas. Portanto, a relação de Cristo com a Sua Igreja é da mesma natureza da relação matrimonial.[lxxxvii] O matrimônio é então tratado como uma relação integral de corpo e alma e para sempre.

Ele inicia pelas esposas, que figuradamente representam a Igreja: “As mulheres sejam submissas a seus próprios maridos, como ao Senhor” (Ef 5.22). Pode parecer estranho falar desta forma em nossos dias; contudo, a Palavra de Deus assim nos ensina e mostra, que o Espírito toca, modifica e recria todas as relações, mesmo aquelas que temos como mais caras. No entanto, quando os princípios bíblicos se assemelham a alguma manifestação cultural de determinada época, enganamo-nos se entendermos que aqueles são decorrentes desta, isto porque a Palavra de Deus nos conduz à motivações diferentes, ainda que em determinados momentos o comportamento possa ser semelhante. Paulo compara a esposa à Igreja, dizendo que assim como a Igreja deve ser submissa a Cristo, que é o seu Cabeça, as esposas devem ser submissas aos seus maridos, por ser este seu cabeça. Esta submissão bíblica deve ser precedida de respeito; “pois não existe submissão voluntária sem que seja precedida de reverência.”[lxxxviii]

Um aspecto que deve nortear a nossa abordagem, é que conforme o ensino Escriturístico, o homem e a mulher se completam harmoniosamente, sendo um dependente do outro (1Co 11.11,12): ambos provém do mesmo Deus que os criou.

Portanto quando, por exemplo, o marido é desprestigiado em sua autoridade, os danos no relacionamento conjugal e na educação dos filhos são incalculáveis; de fato: “um lar sem cabeça é um convite ao caos.”[lxxxix] Creio que nem sempre isso tem sido percebido mesmo nos lares cristãos, quando mesmo em brincadeiras, os maridos são alvos de situações ridículas, onde preponderam – às vezes patrocinados por esposa e filhos –, aspectos do seu temperamento ou mesmo, de algum trejeito, vestuário ou aparência. É preciso sabermos preservar a sua condição de “cabeça” da esposa e consequentemente, do lar. Um lar sem autoridade caminha para o seu esfacelamento. Isto nos conduz portanto, à responsabilidade dos maridos.


b) Amor sacrificial e preservador por parte dos maridos:
(Ef 5.25-29,33)

A responsabilidade do marido nem sempre tem sido enfatizada convenientemente. A plenitude do Espírito também trás responsabilidades para os maridos. Os princípios da Palavra de Deus são sempre amplos de multifacetados; as suas prescrições nunca são isoladas, casuísticas, ou apenas caminham em mão única, antes estabelecem orientações para todos, seja em que área for, em quaisquer situações que nos encontremos. Os mandamentos de Deus corretamente entendidos e praticados, não são penosos, ainda que amiúde nos deparemos com dificuldades resultantes dos nossos pecados (inclusive a falta de fé) e de outros, daí o exercício constante do aprendizado com Deus através da Sua Palavra, que é suficiente para nos instruir. (2Tm 3.16).

Portanto, quando esposas e maridos cumprem adequadamente os preceitos bíblicos, estes deveres passam a ser privilégios, motivos de satisfação, harmonia e crescimento para ambos.

Os maridos são comparados a Cristo, que se deu pela Igreja para a preservar e, continuamente dela cuida, auxiliando-a inclusive, em sua santificação. Cabe aos maridos amar as suas esposas de forma que procure sempre o seu bem-estar, dispostos ao sacrifício se necessário para que o objeto do seu amor permaneça saudável seja em que aspecto for. “É somente quando compreendemos a verdade sobre a relação de Cristo com a Igreja, que podemos realmente agir como os maridos cristãos devem agir”, acentua Lloyd-Jones.[xc]

Aqui, surge um outro ponto: quando o marido assim procede para com a sua esposa, quando ele consegue sair de si mesmo para objetivar prioritariamente o seu amor, está cuidando de si mesmo; os dois são uma só carne e, é impossível ser feliz fazendo o outro infeliz. Daí percebermos a relação essencial dos dois princípios: a mulher é submissa e respeita o seu marido que a quer feliz e dela cuida prioritariamente… O marido, por sua vez, esquece-se de si em prol de sua esposa que, por ser-lhe submissa, está sempre à procura de melhor agradar-lhe… Assim, as Escrituras apresentam uma cadeia perfeita de relação: ambos são uma só carne, que se ama, preserva e protege. Deste ponto, fica ainda mais evidente as dificuldades inerentes a um matrimônio com jugo desigual (2Co 6.14-18).[xci]

“Somente maridos e mulheres cheios do Espírito – comenta Lloyd-Jones –, é que terão uma verdadeira idéia do que um esposo deve ser e do que uma esposa deve ser, e em que deve consistir o relacionamento entre ambos. É o único meio pelo qual obter paz, unidade e concórdia, em vez de desunião, briga e separação, com tudo que resulta desses males.”[xcii]


c) Obediência e honra dos filhos aos pais: (Ef 6.1-3)

Calvino (1509-1564) diz que a obediência é a espécie do gênero honra.[xciii] Os filhos, portanto, cheios do Espírito, revelam a sua condição espiritual no seu relacionamento com os seus pais, amando, obedecendo e honrando-os “no Senhor”. A autoridade dos pais, passa, previamente pela submissão ao nosso Soberano Pai que é Deus; obviamente a nossa fidelidade a Deus tem a primazia num possível conflito de senhores.[xciv] Mais uma vez insisto no ponto de que a nossa vida espiritual não pode estar dissociada do nosso viver cotidiano; o Espírito deu-nos uma nova ótica na qual a nossa compreensão da vida foi mudada e, conseqüentemente, as nossas relações foram refeitas à luz da nossa nova compreensão e do poder do Espírito. O tratamento digno e respeitoso que conferimos aos nossos pais é uma evidência da nossa comunhão com o Espírito (Cl 3.20).

Essa obediência no Senhor é justa diante de Deus e, na obediência fiel a Deus, somos abençoados por Ele mesmo.


d) Educar os Filhos na disciplina do Senhor: (Ef 6.4)

Os pais devem educar os filhos dentro dos princípios bíblicos: a Bíblia também é a verdade no campo educacional; Ela deve ser a norma de todo o nosso pensar e agir.

Como pais, temos também a responsabilidade de não provocar a sua ira, com predileções, falta de apoio, menosprezo, provocações, ironias, excesso de proteção, etc.[xcv] (Cl 3.21; Gn 25.28; 37.3,4; 2Sm 14.13,28; 1Rs 1.6; Hb 12.9-11). A palavra “criai-os” (e)ktre/fw)[xcvi](Ef 6.4) em contraposição à “ira”, indica que devemos criá-los ternamente, com brandura e amor, sem contudo, excluir a disciplina (paidei/a) e admoestação (nouqesi/a)[xcvii] no Senhor. Notemos que o caráter de toda a educação e disciplina de nossos filhos – através de palavras e atos –, é no Senhor. “O que caracteriza a criação cristã não é o método educacional, mas, sim, o propósito que se visa com ele”.[xcviii] A educação cristã visa conduzir a criança ao Senhor.

A admoestação (nouqesi/a) apresenta a idéia de educar através da palavra, usando deste recurso para aconselhá-lo, estimulá-lo e encorajá-lo quando for o caso e, também, se necessário, fazer uso do mesmo meio para censurar, reprovar e repreender com firmeza (Compare: 1Sm 2.24/1Sm 3.13). Paulo diz que passou três anos em Éfeso não deixando incessantemente de “admoestar (nouqete/w),[xcix] com lágrimas, a cada um” (At 20.31). Já a disciplina (paidei/a) é uma palavra mais ampla, abrangendo a educação não apenas verbal mas também, através de atos que podem envolver rigidez com o objetivo de corrigir e ensinar.[c] Notemos, que a disciplina sendo mais abrangente – envolvendo a instrução e correção –, vinha primeiro. Já a admoestação parece ser após a execução da tarefa. Primeiro instruimos; depois, se necessário, exortamos e repreendemos ou, encorajamos conforme as circunstâncias.

Em 1982, o então secretário geral da INTERPOL (Organização Internacional de Polícia Criminal), declarou: “…. quando os jovens não têm mais noção de disciplina, noção do que deve ou não ser feito, noção das regras a serem seguidas, a família desaparece.”[ci]

No Antigo Testamento, Eli foi repreendido por Deus porque os seus filhos que transgrediam a Lei (1Sm 2.22-25), não foram repreendidos por ele: “Porque já lhe disse que julgarei a sua casa para sempre, pela iniqüidade que ele bem conhecia, porque seus filhos se fizeram execráveis, e ele não os repreendeu (nouqete/w)” (1Sm 3.13). Salomão por sua vez, instrui: “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina (LXX: paidei/a) a afastará dela” (Pv 22.15).

Calvino (1509-1564) comenta:

“O tratamento bondoso e liberal conserva a reverência dos filhos para com seus pais, e aumenta a prontidão e a alegria de sua obediência, enquanto que uma severidade austera e inclemente suscita sua obstinação e destrói seus respeito”. Mais à frente continua: “… Deus não quer que os pais sejam excessivamente brandos com seus filhos, ao ponto de corrompê-los, poupando-os demais. Que sua bondade seja temperada, a fim de conservá-los na disciplina do Senhor, e corrigi-los também quando se desviarem. Essa idade requer freqüente admoestação e firmeza com as rédeas, no caso de se soltarem.”[cii]

Escrevendo a Timóteo, Paulo diz que “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para (…) a educação (paidei/a) na justiça” (2Tm 3.16).

A palavra paidei/a (de onde vem a nossa “pedagogia”), significa “educação das crianças”, e tem o sentido de treinamento, instrução, disciplina, ensino, exercício, castigo.

Cada cultura tem o seu modelo de homem ideal e portanto, a educação visa formar esse homem, a fim de atender às expectativas sociais. Paulo sabia muito bem disso; ele mesmo declarara durante a sua defesa em Jerusalém que fora instruído por Gamaliel, o grande mestre da Lei. “Eu sou judeu, nasci em Tarso da Cilícia, mas criei-me nesta cidade e aqui fui instruído (paideu/w) aos pés de Gamaliel, segundo a exatidão da lei de nossos antepassados…” (At 22.3).

De igual modo, Estevão, descrevendo a vida de Moisés, fala de sua formação, declarando: “E Moisés foi educado (paideu/w) em toda a ciência dos egípcios, e era poderoso em palavras e obras” (At 7.22).

Se olharmos ainda que de relance o tipo de formação desde a Antigüidade, poderemos constatar que o seu ideal variava de povo para povo e, até mesmo, de cidade para cidade, daí a diferença entre os “currículos”, visto que este é o caminho, a “corrida” para se atingir o objetivo proposto.[ciii] Assim, temos, ainda que, grosso modo, diversas perspectivas educacionais:

* CHINA: A educação visava conservar intactas as tradições: A originalidade era proibida.

* EGITO: Preparar o educando para uma vida essencialmente prática, que o levasse ao sucesso neste mundo e, através de determinados ritos, alcançasse o favor dos deuses, e a felicidade no além.

* ESPARTA: Homens guerreiros, mas que fossem totalmente submissos ao Estado.

* ATENAS: Treinamento competitivo entre os homens a fim de formar cidadãos maduros física e espiritualmente.

* PLATÃO (427-347 aC): Formar basicamente através da música e da ginástica, homens capazes de vencer a injustiça reinante.[civ]

* OS SOFISTAS:[cv] Pedagogia elitizada,[cvi] propícia e adequada apenas a quem pudesse pagá-los. O seu objetivo era convencer, persuadir o seu oponente independentemente da veracidade do argumento.[cvii]

* ARISTÓTELES (384-322 aC): Formar homens moderados, que tivessem zelo pela ética e estética.[cviii]

* RENASCENÇA: Formar homens eruditos que soubessem ler e escrever em grego e latim, tendo um estilo erudito, que pudessem contribuir para a criação do novo, tendo o homem como “medida de todas as coisas”.

* ATUALIDADE: Formar homens competitivos, que alcancem o sucesso a qualquer preço. É claro que isto sofrerá alterações em cada área de estudo e, também, será diferente entre os países, contudo, esta visão geral nos parece pertinente.

Retornando ao ensino bíblico, perguntamos: E nós, que tipo de homens somos; que tipo de formação temos dado aos nossos filhos?; que tipo de formação a Igreja tem proporcionado à infância e à juventude? Que modelo temos apresentado? Notemos, que Paulo nos diz: “Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino (didaskali/a), para a repreensão, para a correção, para a educação (paidei/a) na justiça” (2Tm 3.16). Portanto, o Deus da Palavra quer nos educar para que sejamos sábios, conforme a Sua sabedoria. A sabedoria consiste na obediência a Deus; é loucura a desobediência. A educação, segundo a perspectiva bíblica, visa formar homens obedientes à Palavra de Deus, que vivam em santidade.

Parece-nos que é neste sentido que Salomão diz: “O temor do Senhor é o princípio do saber, mas os loucos desprezam a sabedoria e o ensino (LXX: paidei/a)” (Pv 1.7; Vd. Pv. 9.10; 15.33; Sl 111.10). “Ouvi o ensino (LXX: paidei/a), sêde sábios, e não o rejeites” (Pv 8.33).

A educação significa também “disciplina”. Deus muitas vezes usa este recurso para nos educar, a fim de que sejamos salvos. Paulo diz: “Mas, quando julgados, somos disciplinados (paideu/w) pelo Senhor, para não sermos condenados com o mundo” (1Co 11.32).

Na educação divina (disciplina), vemos estampada a Sua graça que atua de forma pedagógica: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens, educando-nos (paideu/w) para que, renegadas a impiedade e as paixões mundanas, vivamos no presente século, sensata, justa e piedosamente” (Tt 1.11-12) –; e o Seu amor. Jesus disse: “Eu repreendo (e)le/gxw) e disciplino (paideu/w) a quantos amo. Sê, pois, zeloso, e arrepende-te” (Ap 3.19). Aqui, como em outros textos, percebemos a ligação entre a repreensão e a disciplina (= educação) operada por Deus naqueles a quem Ele ama.

Moisés, compreendendo bem a “didática” de Deus, diz ao povo: “Recordar-te-ás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar (hfnf(),[cix] para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guardarias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou (hfnf(), e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná, que tu não conheceste, nem teus pais o conheceram, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor, disso viverá o homem” (Dt 8.2-3. Do mesmo modo, Dt 8.16) (Vd. Sl 102.23; Is 64.12; Lm 3.33).

O salmista narra a sua experiência: “Foi-me bom ter eu passado pela aflição (hfnf(), para que aprendesse os teus decretos” (Sl 119.71). As aflições corretamente compreendidas podem ser instrumentos utilíssimos para a prevenção e correção de nossos desvios espirituais.

O que a Palavra de Deus nos mostra, e por certo temos confirmado isto em nossa experiência, é que buscamos a Deus mais intensamente em meios às aflições: “Estou aflitíssimo (hfnf(), vivifica-me, Senhor, segundo a tua palavra” (Sl 119.107). “Antes de ser afligido (hfnf() andava errado, mas agora guardo a tua palavra” (Sl 119.67).

O coração contrito – demonstra Moisés – aprende com a disciplina do Senhor e se alegra por Deus tê-lo afligido: “Alegra-nos por tantos dias quantos nos tens afligido (hfnf(), por tantos anos quantos suportamos a adversidade” (Sl 90.15).

O desejo de Deus é a restauração de Seus filhos. Neste sentido, Paulo recomenda ao jovem Timóteo como deveria agir com aqueles que se opunham à mensagem do Evangelho: “Disciplinando (paideu/w = “ensinando”, “instruindo”) com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não só o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele, para cumprirem a sua vontade” (2Tm 2.25-26).

A Palavra de Deus visa formar homens tementes a Deus, sensíveis à Sua Palavra, atentos aos seus ensinamentos. (Hb 12.5-13).

Portanto, os pais cheios do Espírito buscam, através da Palavra em oração, discernimento para poderem aplicar os princípios bíblicos às situações concretas na sua tarefa de educar os filhos. Isto implica no fato de que as suas responsabilidades com a educação de seus filhos, podem ser compartilhadas com a escola e a igreja, porém, não podem ser substituídas.


4.2. Na Vida profissional
:


a) Servir aos Senhores com sinceridade
: (Ef 6.5-8/Cl 3.22-25[HMPC1] )

A forma como desenvolvemos e realizamos o nosso trabalho é também um indicativo de nossa vida espiritual. Um homem cheio do Espírito, é um funcionário pontual, competente, zeloso, exemplar, entendendo que o seu serviço é para o Senhor. Neste ponto, o Cristianismo também produziu uma revolução social. Lembremo-nos de que Paulo escreveu esta orientação primariamente para uma igreja que vivia em uma sociedade escravocrata; portanto, a nossa responsabilidade hoje é bem maior.[cx]

A visão grega do trabalho era extremamente negativa, sendo considerado algo inferior.[cxi] No mundo Romano, apesar de todo o seu empreendimento, filósofos como Cícero (106-43 aC.) e Sêneca (c. 4 aC.-65 dC.), exaltavam o ócio em detrimento do trabalho.[cxii]

Na perspectiva judaica, o trabalho manual era altamente estimado; sendo profundamente respeitado aqueles que o praticavam, visto ser considerado este talento, uma dádiva de Deus.[cxiii] O trabalho faz parte do propósito primevo de Deus para o homem e revela a sabedoria divina (Gn 1.28; 2.15; Ex 20.9; Sl 104.23; Is 28.23-29). Os rabinos, como exemplo desta perspectiva, além do estudo metódico da Lei, aplicavam-se ao trabalho manual para suprir às suas necessidades. (Vd. Mc 6.3; At 18.3).

As Escrituras nos ensinam que Deus nos criou para o trabalho (Gn 2.8,15). O trabalho, portanto, faz parte do propósito de Deus para o ser humano, sendo objeto de satisfação humana: “Em vindo o sol, (…) sai o homem para o seu trabalho, e para o seu encargo até à tarde” (Sl 104.22-23). Na concepção cristã, o trabalho dignifica o homem, devendo o cristão estar motivado a despeito do seu baixo salário ou do reconhecimento humano; embora as Escrituras também observem que o trabalhador é digno do seu salário (Lc 10.7). Seu trabalho deve ser entendido como uma prenda feita a Deus, independentemente dos senhores terrenos; deste modo, o que de fato importa, não é o trabalho em si, mas sim o espírito com o qual ele é feito; a dignidade deve permear todas as nossas obras, visto que as realizamos para o Senhor. A prestação de contas de nosso trabalho deverá ser feita a Deus; é Ele com o Seu escrutínio perfeito e eterno Quem julgará as obras de nossas mãos, daí a recomendação do Apóstolo Paulo:

“E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus. (…) Servos, obedecei em tudo aos vossos senhores segundo a carne, não servindo apenas sob vigilância, visando tão-só agradar homens, mas em singeleza de coração, temendo ao Senhor. Tudo quanto fizerdes, fazei-o de todo o coração, como para o Senhor, e não para homens, cientes de que recebereis do Senhor a recompensa da herança. A Cristo, o Senhor, é que estais servindo; pois aquele que faz injustiça receberá em troco a injustiça feita; e nisto não há acepção de pessoas. Senhores, tratai aos servos com justiça e com eqüidade, certos de que também vós tendes Senhor no céu.” (Cl 3.17,22-4.1).

Portanto, não há desculpas para a fuga do trabalho, mesmo em nome de um motivo supostamente religioso (1Ts 4.9-12/Ef 4.28; 1Tm 5.11-13).

Na Idade Média, há de certa forma, um retorno à idéia grega, considerando o trabalho – no sentido manual, (banausi/a), “arte mecânica”, como sendo algo degradante para o ser humano,[cxiv] e inferior à (sxolh/), ao ócio, descanso, repouso, à vida contemplativa e ociosa (sxola/zw), por um lado, e à atividade militar pelo outro. Na visão de São Tomás de Aquino (1225-1274), o trabalho era no máximo, considerado “eticamente neutro”.[cxv] Segundo a igreja romana, “a finalidade do trabalho não é enriquecer, mas conservar-se na condição em que cada um nasceu, até que desta vida mortal, passe à vida eterna. A renúncia do monge é o ideal a que toda a sociedade deve aspirar. Procurar riqueza é cair no pecado da avareza. A pobreza é de origem divina e de ordem providencial,” interpreta Pirrene.[cxvi]

Ainda na Idade Média, a posição ocupada pelo trabalho era regida pela divisão gradativa de importância social: Oradores (eclesiásticos), Defensores (guerreiros) e Lavradores (agricultores). Desta forma, os eclesiásticos, no seu ócio e abstrações “teológicas” é que tinham a prioridade, ocupando um lugar proeminente. Biéler comenta: “O trabalho, especialmente o trabalho criador de bens e riqueza, o trabalho manual, se não decaíra mais até o nível do trabalho servil da Antigüidade, foi, todavia, considerado como uma necessidade temporal desprezível com relação aos exercícios da piedade. E aqueles que se dedicavam às atividades econômicas e financeiras, os negociantes e banqueiros, eram particularmente desconsiderados.”[cxvii]

Não nos cabe aqui analisar a história da filosofia do trabalho, contudo, devemos mencionar, que Reforma resgatou o conceito cristão de trabalho.

Na ética do trabalho, Lutero (1483-1546) e Calvino (1509-1564) estavam acordes quanto à responsabilidade do homem de cumprir a sua vocação através do trabalho. Não há lugar para ociosidade. Com isto, não se quer dizer que o homem deva ser um ativista, mas sim, que o trabalho é uma “bênção de Deus”. Lutero teve uma influência decisiva, quando traduziu para o alemão o Novo Testamento (1522), empregando a palavra “beruf” para trabalho, em lugar de “arbeit”. “Beruf”, acentua mais o aspecto da vocação do que o do trabalho propriamente dito. As traduções posteriores, inglesas e francesas, tenderam a seguir o exemplo de Lutero. A idéia que se fortaleceu, é a de que o trabalho é uma vocação divina.[cxviii]

Calvino, por sua vez, defendeu três princípios éticos fundamentais: Trabalho, Poupança e Frugalidade.[cxix] Note-se que a poupança deveria ter sempre o sentido social.[cxx] Comentando 2Co 8.15, diz: “Moisés admoesta o povo que por algum tempo fora alimentado com o maná, para que soubesse que o ser humano não é alimentado por meio de sua própria indústria e labor, senão pela bênção de Deus. Assim, no maná vemos claramente como se ele fosse, num espelho, a imagem do pão ordinário que comemos. (…) O Senhor não nos prescreveu um ômer ou qualquer outra medida para o alimento que temos cada dia, mas ele nos recomendou a frugalidade e a temperança, e proibiu que o homem exceda por causa da sua abundância. Por isso, aqueles que têm riquezas, seja por herança ou por conquista de sua própria indústria e labor, devem lembrar que o excedente não deve ser usado para intemperança ou luxúria, mas para aliviar as necessidades dos irmãos. (…) Assim como o maná, que era acumulado como excesso de ganância ou falta de fé, ficava imediatamente putrificado, assim também não devemos alimentar dúvidas de que as riquezas que são acumuladas à expensa de nossos irmãos são malditas, e logo perecerão, e seu possuidor será arruinado juntamente com elas, de modo que não conseguimos imaginar que a forma de um rico crescer é fazendo provisões para um futuro distante e defraudando os nossos irmãos pobres daquela ajuda que a eles é devida.”[cxxi]

Para Calvino a riqueza residia em não desejar mais do que se tem e a pobreza, o oposto.[cxxii] Por sua vez, também entendia que a prosperidade poderia ser uma armadilha para a nossa vida espiritual: “Nossa prosperidade é semelhante à embriaguez que adormece as almas.”[cxxiii] A nossa riqueza está em Deus, Aquele que soberanamente nos abençoa.[cxxiv] Portanto, “…. é uma tentação muito grave, ou seja, avaliar alguém o amor e o favor divinos segundo a medida da prosperidade terrena que ele alcança.”[cxxv] Quanto ao dinheiro, como tudo que temos provém de Deus, “o dinheiro em minha mão é tido como meu credor, sendo eu, como de fato sou, seu devedor.”[cxxvi]

Max Weber (1864-1920) ao analisar o progresso econômico protestante, não conseguiu captar este aspecto fundamental no protestantismo, que enfatiza o trabalho, não simplesmente pelo dever ou vocação, conforme Weber entendeu, mas sim, para a glória de Deus; este é o fator preponderante, que escapou à sua compreensão.

Um comentarista bíblico, resume bem o espírito cristão do trabalho, afirmando: “O trabalhador deve fazê-lo como se fosse para Cristo. Nós não trabalhamos pelo pagamento, nem por ambição, nem para satisfazer a um amo terreno. Trabalhamos de tal maneira que possamos tomar cada trabalho e oferecê-lo a Cristo.”[cxxvii] (Vd. 1Tm 6.1-2).

O empregado cristão reconhece que todas as vocações são de Deus e que, em última instância é a Deus a Quem teremos de prestar contas. Desta forma, seja qual for o nosso trabalho, deve ser realizado para a glória de Deus: Ele é a Quem estamos servindo. Esta perspectiva é decorrente da compreensão de que Deus é o Senhor de todas as coisas e, esta prática, só é possível pelo Espírito que nos “enche” gradativamente e, nos faz cumprir a Sua vontade.

Lamentavelmente, o conceito Protestante do trabalho, no pensamento moderno, foi secularizado, abandonando aos poucos a concepção religiosa que lhe dera suporte, tornando-se agora apenas uma questão de racionalidade, não necessariamente de “vocação” ou de “glorificação a Deus”. Perdeu-se a “infra-estrutura”, ficou-se apenas com a “superestrutura.”


b) Tratar os “empregados” com dignidade: (Ef 6.9)

Os patrões e chefes cristãos que vivem no Espírito, por certo, não aproveitam da sua autoridade para pressionar os que estão sob as suas ordens, valendo-se do fato de que há mais procura do que oferta de emprego, a fim de ameaçá-los, menosprezá-los ou tratá-los indignamente como se fossem apenas uma ferramenta humana descartável (Vd. Cl 4.1). A justiça divina (Is 64.6) deve ser a tônica da relação patrão-empregado e empregado-patrão. A base para este relacionamento, é a certeza de que, quer sejamos empregados, quer sejamos patrões, todos temos o mesmo Senhor no céu (Ef 6.9; Cl 4.1). A possibilidade real desta prática está no fato de sermos guiados e capacitados pelo Espírito Santo.


CONCLUSÃO:

A nossa profissão de fé e conseqüente progresso espiritual em submissão a Deus, tem implicações em todas as áreas de nossa existência. Deste modo, podemos falar que o crente cheio do Espírito é aquele que esforça-se por ser um marido amoroso, cuidadoso e preservador; uma esposa submissa e respeitosa; ambos são pais zelosos na educação de seus filhos; os filhos são obedientes e honram aos seus pais, os empregados cumprem as suas obrigações com dignidade, os patrões valorizam os seus empregados. Ao mesmo tempo, segundo nos parece, este percurso de comportamento do crente, é um guia seguro para o nosso aperfeiçoamento espiritual, para a plenitude do Espírito. Aqui, portanto, em Efésios, temos a rota, o itinerário fornecido pelo próprio Espírito para enchermo-nos continuamente dEle. Sigamos pois a sua trilha. Que Deus nos ilumine. Amém.

São Paulo, 01 de abril de 2001.

Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa


[i] In Nicene and Post-Nicene Fathers of the Christian Church, P. Schaff and H. Wace, eds. (Second Series), Grand Rapids, Michigan, Eerdmans, 1978, Vol. VII, p. 115. (Doravante citado como NPNF2)

[ii] Boanerges Ribeiro, O Senhor que Se Fez Servo, p. 43.

[iii] “Pela lei Deus exige o que lhe é devido, todavia não concede nenhum poder para cumpri-la. Entretanto, por meio do Evangelho os homens são regenerados e reconciliados com Deus através da graciosa remissão de seus pecados, de modo que ele é o ministério da justiça e da vida.” [João Calvino, Exposição de Segundo Coríntios, São Paulo, Paracletos, 1995, (2Co 3.7), p. 70].

[iv]George E. Ladd, Teologia do Novo Testamento, Rio de Janeiro, JUERP., 1985, p. 451.

[v] A.A. Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo, Cultura Cristã, 1997, p. 59.

[vi] David M. Lloyd-Jones, Deus o Espírito Santo, p. 311.

[vii]Suni/hmi (syniêmi), envolve a idéia de reunir as coisas, analisá-las, tentando chegar a uma conclusão através de uma conexão das partes. (* Mt 13.13,14,15,19,23,51; 15.10; 16.12; 17.13; Mc 4.12; 6.52; 7.14; 8.17,21; Lc 2.50; 8.10; 18.34; 24.45; At 7. 25 (duas vezes); 28.26,27; Rm 3.11; 15.21; 2Co 10.12; Ef 5.17).

[viii] A palavra traduzida por “examinando” é a)nakri/zw (anakrizõ), que tem o sentido de “fazer uma pesquisa cuidadosa”, um “exame criterioso”, “inquirir”. (* Lc 23.14; At. 4.9; 12.19; 17.11; 24.8; 28.18; 1Co 2.14,15 (duas vezes); 4.3 (duas vezes),4; 9.3; 10.25,27; 14.24).

[ix] Su/nesij (synesis), ocorre 7 vezes no NT.: Mc 12.33; Lc 2.47; 1Co 1.19; Ef 3.4; Cl 1.9; 2.2; 2Tm 2.7, significando, discernimento, inteligência, envolvendo a idéia de reunir as evidências para avaliar e chegar a uma conclusão. Este “entendimento” deve ser fruto de uma reflexão, recorrendo, contudo, à iluminação de Deus (2Tm 2.7). Esta palavra é da mesma raiz de Suni/hmi (syniêmi).

[x] “Quando todo o espaço das nossas mentes for preenchido até transbordar com o conhecimento da vontade do Senhor, já não teremos muito interesse em satisfazer egoisticamente a nossa própria vontade.” (R. P. Shedd, Andai Nele: Exposição bíblica de Colossenses, São Paulo, ABU., 1979, p. 22).

[xi] “A essência do cristianismo é que o Espírito Santo nos é dado, está em nós, quer tenhamos consciência dele quer não.” (D. Martyn Lloyd-Jones, O Combate Cristão, São Paulo, PES.,1991, p. 123).

[xii] Vejam-se: Kenneth S. Wuest, Jóias do Novo Testamento Grego, São Paulo, Imprensa Batista Regular, 1979, p. 29-32; A.A. Hoekema, Salvos pela Graça, São Paulo, Cultura Cristã, 1997, p. 58-59; John R.W. Stott, Batismo e Plenitude do Espírito Santo, 2ª ed. ampl. São Paulo, Vida Nova, 1986, p. 44-45; Wayne A. Grudem, Teologia Sistemática, p. 650.

[xiii] A.A. Hoekema, Salvos pela Graça, p. 58.

[xiv] Vd. A.A. Hoekema, Salvos pela Graça, p. 58.

[xv] John R.W. Stott, Batismo e Plenitude do Espírito Santo, p. 44.

[xvi] D.M. Lloyd-Jones, Vida no Espírito, São Paulo, PES., 1991, p. 22.

[xvii]C.H. Spurgeon, Firmes na Verdade, p. 77.

[xviii] Hughes Oliphant Old, Worship: That Is Reformed According to Scripture, Atlanta, John Knox Press, 1984, p. 6

[xix]yalmo/j [* Lc 20.42; 24.44; At 1.20;13.33; 1Co 14.26; Ef 5.19; Cl 3.16] [Cântico de louvor, salmo]. A palavra é usada para referir-se ao Livro de Salmos ou a algum Salmo específico (Cf. Lc 20.42; 24.44; At 1.20; 13.33), contudo em outras referências não são especificações daquele, parecendo indicar com isso, que além dos Salmos canônicos outros “salmos” (hinos cristãos) eram cantados na Igreja. Os salmos eram empregados apenas para hinos de louvor. O verbo ya/llw [* Rm 15.9; 1Co 14.15; Ef 5.19; Tg 5.13], tem o sentido básico de cantar, cantar louvores. Outra palavra da mesma raiz usada no NT. é yhlafa/w [* Lc 24.39; At 17.27; Hb 12.18; 1Jo 1.1], que tem o sentido de “mão” ou ato de tocar, apalpar. Parece-nos portanto, que o louvor a Deus aqui caracterizado, envolvia o emprego de algum instrumento que fosse tocado com as mãos. Curiosamente encontrei posteriormente esta definição de yalmo/j em Isidro: “ação de sacudir as cordas de um instrumento”. [Isidro Pereira, Dicionário Grego-Português e Português-Grego, 7ª ed. Braga, Livraria Apostolado da Imprensa, (1990), p. 636]. Na literatura clássica o verbo parece estar associado ao ato de tanger as cordas de um instrumento musical. Inclino-me a crer que os salmos aludidos por Paulo eram canções de adoração feitas por compositores cristãos, que eram cantadas, ainda que não estritamente, com acompanhamento musical; o seu estilo se assemelhava e se inspirava no Saltério e, outras vezes, ao invés de composições contemporâneas, fosse o próprio Saltério cantado. Aqui, talvez tenhamos a força da herança judaica na adoração cristã modelada pelo Espírito Santo.

[xx]u(/mnoj [* Ef 5.19; Cl 3.16][Uma canção, hino de louvor a Deus (Sl 40.3; Is 42.10), “hino festivo de louvor”]. O verbo u(mne/w [* Mt 26.30; Mc 14.26; At 16.25; Hb 2.12] [Cantar o louvor de, cantar um hino, celebrar (Sl 22.22)]. No Novo Testamento, ambas as palavras estão associadas a cânticos a Deus. A origem da palavra é incerta, sendo aplicada no grego clássico desde Homero englobando uma gama variada de formas poéticas, referindo-se à poesia cantada e recitada, referindo-se geralmente aos hinos cantados em honra a alguma divindade ou a heróis. (Vd. Platão, A República, 607a. p. 475).

[xxi]%)dh [* Ef 5.19; Cl 3.16; Ap 5.9; 14.3 (2vezes); 15.3] [“Ode”, “canção”, “hino”]. O verbo é #)/dw [* Ef 5.19; Cl 3.16; Ap 5.9; 14.3; 15.3] [“Cantar”]. Em Ap 15.3 o verbo e o substantivo ocorrem conjuntamente referindo-se ao cântico de Moisés (Cf. Ex 15.1; Sl 145.7) e ao cântico do Cordeiro. %)dh é uma contração de a)oidh/ [arte de cantar, canto], proveniente de a)ei/dw, do verbo #)/dw [cantar, celebrar, elogiar]. Das três esta é a palavra mais genérica; a %)dh pode ser de lamentação, luxo, queixa ou alegria. A palavra na literatura grega secular não estava limitada ao “cântico” do ser humano, podendo referir-se a todo tipo de sons: ao coaxar do sapo, ao som de um instrumento (harpa), o silvo produzido pelo vento nas árvores ou de uma pedra. Talvez “hinos” e “cânticos” descritos por Paulo refiram-se principalmente aos cânticos neotestamentários, estando refletido neles elementos da herança grega – considerando que muitos dos cristãos tinham esta formação –, no entanto, sob a direção do Espírito, tendo como elemento aferidor a Palavra de Cristo (Cl 3.16).

[xxii] Calvino admitindo a dificuldade de se estabelecer a distinção [João Calvino, Exposição de Efésios, (5.19), p. 165], diz: salmo é o que é cantado com acompanhamento de algum instrumento musical; o hino é uma canção de louvor sem acompanhamento de instrumento; a ode além de louvor, contém exortações e outros assuntos. [Cf. John Calvin, Epistle to the Colossians, Grand Rapids, Michigan, Baker Book House, (Calvin’s Commentaries, Vol. XXI), 1996 (Reprinted), (Cl 3.16), p. 217].

[xxiii] No paganismo a relação entre o excesso de bebida e a prática religiosa era comum, especialmente nos serviços ao deus Dionísio (= Baco), na bacanália, estando a embriaguez também associada à prostituição (Vd. Ap 17.2). “O culto a Dionísio, com sua ênfase sobre a embriaguez religiosa, era conhecido em Corinto e em outros lugares, e é razoável ver dentro destes textos das Epístolas do NT a preocupação no sentido de traçar uma linha divisória entre todos esses cultos helenísticos, e a vida do cristão no Espírito.” (J.P. Budd, Sóbrio: In: NDITNT., Vol. IV, p. 518). (Vd. também: Augustus N. Lopes, Cheios do Espírito, São Paulo, Os Puritanos/Editora Cultura Cristã, 1998, p. 17). As festas em homenagem a Baco eram tão promíscuas que o Senado romano as proibiu por decreto; no entanto, o costume estava tão arraigado no povo que a lei foi ineficaz. (Cf. P. Commelin, Mitologia Greco-Romana, Salvador, Ba., Aguiar & Souza, 1957, p. 72). Baco, na mitologia esteve associado à musica e ao teatro: “Afirma-se que foi Baco o primeiro a estabelecer uma escola de Música; as primeiras representações teatrais foram feitas em sua homenagem.” (P. Commelin, Mitologia Greco-Romana, p. 69).

[xxiv] a)swti/a é constituída de duas palavras: a = “não” & sw/zw = “libertar”, “salvar”, “curar”. O sentido literal da palavra é de alguém que não consegue poupar, economizar; é, portanto, perdulário, dissoluto. [* Ef 5.18; Tt 1.6; 1Pe 4.4. (Vd. LXX: Pv 28.7)]. A forma adverbial a)sw/toj (dissolutamente), é empregada em sua única aparição no Novo Testamento, para se referir ao modo de vida do filho pródigo longe de sua casa (Lc 15.13). [Vd. Richard C. Trench, Synonyms of the New Testament, Grand Rapids, Michigan, Eerdmans, 1985 (Esta edição reproduz a 9ª, de 1880), p. 53-58]. Portanto, a palavra está geralmente associada ao modo devasso e libertino de viver. Ela descreve a condição da mente e do corpo que foram arrastados à uma situação vil sendo decorrente daí uma total insensibilidade espiritual. [Vd. R.C.H. Lenski, St. Paul´s Epistle To the Ephesians, Peabody, Massachusetts, Hendrickson Publishers, (Commentary on the New Testament),1998, (Ef 5.18), p. 618]. C. S. Lewis faz um oportuno contraste: “Precisamos divertir-nos. Mas nossa alegria deve ser aquela (aliás, a maior de todas) que existe entre pessoas que sempre se levaram a sério – sem leviandade, sem superioridade, sem presunção (…) a leviandade parodia a alegria.” (C.S. Lewis, Peso de Glória, 2ª ed. São Paulo, Vida Nova, 1993, p. 23).

[xxv] Calvino comenta: “[Paulo] quer dizer, pois, que os beberrões logo perdem a modéstia e não mais conseguem conter-se pelo pudor: que onde o vinho reina, o desregramento prevalecerá: e, conseqüentemente, que todos aqueles que cultivam algum respeito pela moderação ou decência, devem fugir e abominar a bebedice.” [João Calvino, Exposição de Efésios, (Ef 5.18), p. 164].

[xxvi]Vd. William Hendriksen, Exposição de Efésios, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1992, (Ef. 5.18), p. 297.

[xxvii]William Hendriksen, Exposição de Efésios, (Ef. 5.18), p. 299.

[xxviii] Erroll Hulse, O Batismo do Espírito Santo, São José dos Campos, SP., Fiel, 1995, p. 113.

[xxix] Erroll Hulse, O Batismo do Espírito, p. 114.

[xxx] John H. Leith, A Tradição Reformada: Uma maneira de ser a comunidade cristã, p. 336.

[xxxi] João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. I, p. 34.

[xxxii]João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. I, p. 35-36. Bonhoeffer (1906-1945) apreciando o Livro de Salmos, diz: “Devemos ler vários Salmos diariamente e, de preferência, em conjunto, a fim de lermos este livro diversas vezes ao ano, penetrando nele com mais profundidade. (…) Ao esquecer-se do Saltério, a cristandade perde um tesouro inigualável. Ao recuperá-lo, será presenteada com forças jamais imaginadas.” (Dietrich Bonhoeffer, Orando com os Salmos, Curitiba, PR., Encontrão Editora, 1995, p. 23,24).

[xxxiii]João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. I, p. 33.

[xxxiv]John Calvin, Commentary of the Book of Psalms, Grand Rapids, Michigan, Baker Book House (Calvin’s Commentaries, Vol. IV), 1996 (Reprinted), Prefácio, p. XXXV. (Tradução brasileira, João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. I, p. 31).

[xxxv] Agostinho, Confissões, São Paulo, Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. VI), 1973, X.33. p. 219-220.

[xxxvi] Agostinho, Confissões, X.33. p. 220.

[xxxvii] João Calvino, As Institutas, III.20.31.

[xxxviii] João Calvino, As Institutas, III.20.32.

[xxxix] Cf. John T. McNeill, The History and Character of Calvinism, p. 148.

[xl] André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 133.

[xli] Cf. Frank Dobbins, Loys Bourgeois: In: Stanley Sadie, ed. The New Grove Dictionary of Music and Musicians, New York, Macmillan Publishers, 1980, Vol. III, p. 111. A tradução de Marot tornou-se extremamente popular na corte e na cidade, advogando “materialmente” a causa da Reforma na França (Cf. F.J.B. Watson, Clément Marot: In: Harry S. Ashmore, Editor in Chief, Encyclopaedia Britannica, (1962), Vol. 14, p. 936), ainda que ele não fosse propriamente Reformado, tendo um comportamento ambíguo (Vd. Edward Dickinson, Music in The History of The Western Church, London, Smith, Elder & Co., 1902, p. 359-360).

[xlii]Edward Dickinson, Music in The History of The Western Church, p. 360.

[xliii]John H. Leith, A Tradição Reformada: Uma maneira de ser a comunidade cristã, p. 299. Também, p. 40.

[xliv]Cf. John H. Leith, A Tradição Reformada: Uma maneira de ser a comunidade cristã, p. 299. Ele também se tornou um grande sucesso editorial, sendo publicadas 25 edições já no primeiro ano de sua publicação. Nos quatro anos seguintes foram publicadas 62 edições. (Vd. mais detalhes In: John H. Leith, A Tradição Reformada: Uma maneira de ser a comunidade cristã, p. 336). Curiosamente, Schaff diz que o “Saltério de Genebra” nunca se tornou popular. (Vd. Philip Schaff, History of the Christian Church, Vol. VIII, p. 265-266). Talvez Schaff possa estar se referindo ao possível fato do “Saltério Genebrino”, mesmo tendo sido traduzido para vários idiomas, jamais ter usufruído maciçamente do gosto popular, o que de fato não é impossível, tendo acontecido fatos semelhantes em nossa própria igreja no Brasil.

[xlv] Apud John T. McNeill, The History and Character of Calvinism, p. 148.

[xlvi] Apud T. George, Teologia dos Reformadores, p. 181. Vd. também: John T. McNeill, The History and Character of Calvinism, p. 147.

[xlvii] John H. Leith, A Tradição Reformada: Uma maneira de ser a comunidade cristã, p. 301.

[xlviii]John H. Leith, A Tradição Reformada: Uma maneira de ser a comunidade cristã, p. 299. Foi o próprio Calvino que adaptou a melodia de um dos corais de Greiter ao Salmo 68. (Cf. Henriqueta R.F. Braga, Contribuição da Reforma ao Desenvolvimento Musical: In: Bill H. Ichter, org. A Música Sacra e Sua História, Rio de Janeiro, JUERP., 1976, p. 77).

[xlix]A expressão usada por Cristo em Mt 6.7, Battaloge/w, que só ocorre aqui, parece ser onomatopéica, significando “falar sem sentido”, “balbuciar”, “repetir palavras ou sons inarticulados”, “falar sem pensar”, “falar futilmente”, “gaguejar”, “dizer sempre a mesma coisa”, “tagarelar”, “uma repetição supérflua e exagerada”, “repetir uma fórmula muitas vezes”, [J. Calvin, Commentary on a Harmony of the Evangelists, Mattew, Mark, and Luke, Grand Rapids, Michigan, Baker, (Calvin’s Commentaries, Vol. XVI), 1981, Vol. I, p. 313], etc. Tyndale traduz: “Tagareleis demais”; Knox: “Useis muitas frases”; Velha Versão Siríaca: “Não digais coisas ociosas”.

O verbo Battaloge/w é constituída de (Ba/ttoj = “gago” & loge/w = “falar”). Ele é de derivação incerta; Erasmo (1467-1536), por exemplo, entendia que esta expressão era proveniente de “Bato”, personagem descrito por Heródoto: “Chegando a Teras, Polineto, homem de alta posição, tomou a jovem como concubina, e o casal teve, no fim de certo tempo, um filho que gaguejava e sibilava. Essa criança, segundo os Tereus e Cireneus, recebeu o nome de Bato” (Heródoto, História, IV.155. Vd. Ba/ttoj: In: A Lexicon Abridged from Liddell and Scott’s Greek-English Lexicon, London, Clarendon Press, 1935, p. 128b). No entanto, Heródoto, que discorda desta explicação para o nome do menino, diz que “batus significa rei na língua dos Líbios.” (Heródoto, História, IV.155). Também especula-se que esta expressão viria por derivação de um poeta medíocre, Battus, que teria feito hinos extensos, cheios de repetições (Vd. A.B. Bruce, The Gospel According to Matthew: In: W. Robertson Nicoll, ed. The Expositor’s Greek Testament, Grand Rapids, Michigan, Eerdmans, 1983 (Reprinted), Vol. I, p. 118-119; John R.W. Stott, A Mensagem do Sermão da Montanha, 3ª ed. São Paulo, ABU., 1985, p. 146). O fato é que ninguém consegue precisar a origem da palavra. [Para maiores detalhes, vejam-se: G. Delling, Battaloge/w, In: G. Kittel & G. Friedrich, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Vol. I, p. 597; Battologe/w: In: James Hope Moulton & George Mulligan, The Vocabulary of the Greek New Testament, Grand Rapids, Michigan, Eerdmans, 1982(reprinted), p. 107; H. Balz, Battaloge/w, In: Horst Balz & Gerhard Schneider, eds. Exegetical Dictionary of New Testament, Grand Rapids, Michigan, Eerdmans, 1978-1980, Vol. I, p. 209; Battaloge/w: In: Walter Bauer, A Greek-English Lexicon of the New Testament, 5ª ed. Chicago, The Chicago Press, 1958, p. 137]. Para maiores detalhes, Vd. Hermisten M.P. Costa, Pai Nosso: A Oração do Senhor, São Paulo, 1999, p. 19ss.

[l]Calvino comenta: “… É fora de propósito e um absurdo que alguém fale numa assembléia da Igreja sem que os ouvintes entendam sequer uma palavra do que ele diz. (…) Não importa quão refinada uma língua venha ser, mesmo assim uma pessoa será descrita como ‘bárbara’ se ninguém a pode entender!” [J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 14.11), p. 415].

[li] J. Calvino, As Institutas, III.20.33. A Segunda Confissão Helvética (1562-1566), tendo em vista o ensinamento bíblico, nos capítulos XXII e XXIII, exorta:

“Calem-se, pois, todas as línguas estranhas nas reuniões de culto, e sejam, todas as coisas expressas na língua do povo, compreendida por todas as pessoas presentes.

“Certo é que se permite a quem quer que seja orar em particular em qualquer língua que entenda, mas as orações públicas nas reuniões do culto devem ser feitas em vernáculo, a língua conhecida do povo.”

[lii]John H. Leith, A Tradição Reformada: Uma maneira de ser a comunidade cristã, p. 303. O eminente teólogo puritano John Owen (1616-1683) em um sermão, disse: “Quão pouco pensam os homens sobre Deus e seus caminhos, se imaginarem que um pouco de tinta e de verniz fazem uma beleza aceitáveis!” (John Owen, Sermon IV. In: The Works of John Owen, Carlisle, Pennsylvania, The Banner of Truth Trust, 1982, Vol. IX, p. 78).

[liii]”O culto cristão contemporâneo é motivado e julgado por padrões diversos: seu valor de entretenimento, seu suposto apelo evangélico, sua fascinação estética, até mesmo, talvez, seu rendimento econômico. A herança litúrgica da Reforma nos recorda a convicção de que, acima de tudo, o culto deve servir para o louvor do Deus vivo.” (Tymothy George, Teologia dos Reformadores, p. 317).

[liv]John F. MacArthur Jr., Com Vergonha do Evangelho, São José dos Campos, SP., Fiel, 1997, p. 117-118.

[lv]John F. MacArthur Jr., Com Vergonha do Evangelho, p. 130.

[lvi]Vd. também: Catecismo Maior de Westminster, Perg. 109 e Catecismo de Heidelberg, Perg. 96. Hodge comentando o Capítulo XXI.1da Confissão de Westminster, diz: “Daqui se segue que se Deus prescreveu [na Escritura] o modo aceitável como o temos de adorar e servir, é uma ofensa a Ele e um pecado de nossa parte descuidar desse método ou preferir a prática do inventado por nós. (…) Como demonstramos pela Escritura, não só as doutrinas e os mandamentos do homem, senão todo culto voluntário, isto é, atos e formas de culto inventados, são abominação para Deus. (…) Não temos nenhum direito, para que, fundando-nos no gosto, na moda ou na utilidade, ultrapassemos o que a Bíblia claramente autoriza.” [Archibald A. Hodge, Comentario de la Confesion de Fe de Westminster, Cap. XXI, p. 251,252].

[lvii] Vd. J.I. Packer, O Conhecimento de Deus, São Paulo, Mundo Cristão, 1980, p. 37; Paulo Anglada, O Princípio Regulador do Culto, São Paulo, PES., (1998), p. 28ss.

[lviii]Comentado Rm 5.19, Calvino diz: “Só quando seguimos o que Deus nos ordenou é que verdadeiramente o adoramos e rendemos obediência à sua Palavra.” [J. Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 5.19), p. 198]. Em outro lugar: “… Quando os homens se permitem cultuar a Deus conforme suas próprias fantasias, e não observam os Seus mandamentos, pervertem a verdadeira religião.” [John Calvin, Commentaries on the Prophet Jeremiah, Grand Rapids, Michigan, Baker Book House, (Calvin’s Commentaries, Vol. IX), 1996 (reprinted), (Jr 7.31), p. 414]. “É evidente, à luz desse fato, que os homens cultuarão a Deus inutilmente, se porventura não observarem o modo correto; e que todas as religiões que não contêm o genuíno conhecimento de Deus são não só fúteis, mas também perniciosas, visto que todas aquelas que não sabem distinguir Deus dos ídolos estão sendo impedidas de se aproximarem dele. Não pode haver religião alguma onde não reine a verdade. Se um genuíno conhecimento de Deus habita os nossos corações, seguir-se-á inevitavelmente que seremos conduzidos a reverenciá-lo e a temê-lo. Não é possível ter genuíno conhecimento de Deus exceto pelo prisma de sua majestade. É desse fator que nasce o desejo de servi-lo, e daqui sucede que toda a vida é direcionada para ele como seu supremo alvo.” [João Calvino, Exposição de Hebreus, (Hb 11.6), p. 305-306].

[lix]João Calvino, Exposição de Romanos, (Rm 12.1), p. 424-425. Para Calvino, a racionalidade legítima, consistia em submeter o nosso intelecto a Deus: “Quanto mais avançado aquele homem que há aprendido a não pertencer-se a si mesmo, nem a ser governado por sua própria razão, senão que submete a sua mente a Deus! (…) O serviço do Senhor não só implica uma autêntica obediência, senão também a vontade de pôr aparte seus desejos pecaminosos e submeter-se completamente à direção do Espírito Santo.” (John Calvin, Golden Booklet of the True Christian Life, p. 21). A Confissão Belga (1561), após dizer o que entende por Escritura – os 66 livros Canônicos –, acrescenta: “Cremos, que esta Sagrada Escritura contém de um modo completo a vontade de Deus, e que tudo o que o homem está obrigado a crer para ser salvo se ensina suficientemente nela. Pois, já que toda forma de culto que Deus exige de nós ali está extensamente descrita, assim não é permitido aos homens, ainda que sejam Apóstolos, ensinar de outra maneira que como agora se nos ensina pela Sagrada Escritura. (…) Sua doutrina é perfeitíssima e completa em todas suas formas.” (Art. 7).

Anglada, observa com pertinência, que “A história das religiões demonstra que quando o próprio homem se arroga o direito de conceber formas de adoração a Deus, os maiores absurdos podem acontecer. Prostitutas cultuais, luxúria, sacrifícios humanos, auto-flagelação, adoração da própria natureza, culto a demônios e a espíritos imundos, são alguns exemplos.” [Paulo Anglada, O Princípio Regulador do Culto, p. 7-8].

[lx] João Calvino, A Verdadeira Vida Cristã, São Paulo, Novo Século, 2000, p. 29.

[lxi] J. Calvino, As Institutas, I.5.13. “Portanto, uma vez que, de seguir-se na adoração de Deus, nimiamente fraco e frágil vínculo da piedade seja ou a praxe da cidade, ou o consenso da antigüidade, resta que o próprio Deus dê do céu testemunho de Si.” (J. Calvino, As Institutas, I.5.13).

[lxii] João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 50.5), p. 403.

[lxiii] João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 50.23), p. 420.

[lxiv] João Calvino, As Institutas, II.8.17. Do mesmo movo, ver também: J. Calvino, As Institutas, II.8.16; Breve Catecismo, Pergs. 49-52; Catecismo Maior, Pergs. 108-110; Confissão Belga, 7; Confissão de Westminster, 21.1.

[lxv] João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 50.1-2), p. 398.

[lxvi] John Calvin, Commentaries of the Four Last Books of Moses, Vol. 1, Grand Rapids, Michigan, Baker Book House, (Calvin’s Commentaries, Vol. II), 1996 (Reprinted), (Dt 12.32), p.453].

[lxvii]João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 1.2), p. 53.

[lxviii]João Calvino, As Institutas, I.17.5.

[lxix] Vd. J. Calvino, As Institutas, II.8.16. O princípio de que devemos ser agradecidos a Deus considerando os seus feitos para conosco, é enfático no pensamento de Calvino: “Depois de Deus nos conceder gratuitamente todas as coisas, ele nada requer em troca senão uma grata lembrança de seus benefícios.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 6.5), p. 129]. Vd. também: João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.3), p. 216; (Sl 40.9), p. 231-232; (Sl 56.12), p. 503-504.

[lxx] “O culto reflete a teologia eclesiológica e deve marcar a fronteira entre o mundano concupiscente e o sagrado espiritualizado.” [Onezio Figueiredo, Culto (Opúsculo II), p. 25].

[lxxi] A Igreja Presbiteriana Ortodoxa e o Culto, tradução de Sonedi H. Evangelista, p. 8a.

[lxxii] João Calvino, As Institutas, I.12.1.

[lxxiii]Vd. Hermisten M. P. Costa, Teologia do Culto, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, 1987, p. 38-40.

[lxxiv] Sobre a Inspiração da Bíblia, Vd. Hermisten M.P. Costa, A Inspiração e Inerrância das Escrituras: Uma Perspectiva Reformada, passim.

[lxxv] “O culto cristão contemporâneo é motivado e julgado por padrões diversos: seu valor de entretenimento, seu suposto apelo evangélico, sua fascinação estética, até mesmo, talvez, seu rendimento econômico. A herança litúrgica da Reforma nos recorda a convicção de que, acima de tudo, o culto deve servir para o louvor do Deus vivo.” (Tymothy George, Teologia dos Reformadores, p. 317).

[lxxvi]Xenofonte, Ditos e Feitos Memoráveis de Sócrates, São Paulo, Abril Cultural (Os Pensadores, Vol. 2), 1972, IV.3.16. p. 149.

[lxxvii]Calvino corretamente diz: “Embora Deus de forma alguma careça de nossos louvores, contudo sua vontade é que este exercício, por diversas razões, prevaleça em nosso meio.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.9), p. 232].

[lxxviii] João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 40.9), p. 231.

[lxxix] “Não que ajoelhar-se seja em si mesmo necessário quando oramos, mas, porque necessitamos de estímulos, como dissemos, dobrar os joelhos é uma atitude muito importante. Em primeiro lugar, porque somos advertidos de que só podemos apresentar-nos diante de Deus de maneira humilde e reverente. E, em segundo lugar, para que nossas mentes estejam melhor preparadas para a oração sincera. E este símbolo de adoração é aceitável aos olhos do Senhor.” [João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo, Parakletos, 2000, Vol. 1, (Dn 6.10), p. 375].

[lxxx] Juan Calvino, El Uso Adecuado de la Afliccion: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan, T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 19), p. 226.

[lxxxi] Vd. também: 1Co 1.4; Cl 1.3,4,12; 1Ts 1.2,3; 2.13; 3.9; 2Ts 1.3; 2.13; Fm 4.

[lxxxii] William Hendriksen, Exposição de Efésios, (Ef. 5.22), p. 308.

[lxxxiii] “O propósito da existência do homem como ser criado não é ser um auxílio para a mulher no casamento. Mas o propósito da existência da mulher como ser criado é glorificar a Deus sendo um auxílio para o homem.

“…. A mulher deve ser, na verdade, uma auxiliadora do homem. Mas deve ser auxiliadora ‘correspondente a ele’. O todo da criação de Deus serviria de auxílio ao homem de uma ou outra maneira. Mas em parte alguma da criação poder-se-ia achar um auxiliar ‘correspondente’ ao homem (Gn 2.20). Somente a mulher como ser criado do homem correspondeu a ele de tal maneira que fez dela o auxílio adequado de que ele necessitava.

“Este traço distintivo da mulher indica que ela não é menos significativa do que o homem com respeito à pessoa dela. De maneira igual ao homem, ela traz em si mesma a imagem e semelhança de Deus (Gn 1.27). Somente como igual em pessoalidade podia a mulher ‘corresponder’ ao homem.” (O. Palmer Robertson, Cristo dos Pactos, Campinas, SP. Luz para o Caminho, 1997, p. 69).

[lxxxiv]Cf. Gerhard von Rad, Genesis: A Commentary, 3ª ed. (Revised Edition), Bllombsbury Street London, SCM Press Ltd., 1972, (Gn 2.21-23), p. 84.

[lxxxv]Cf. Gerhard von Rad, El Libro del Genesis, Salamanca, Sigueme, 1977, (Gn 2.22).

[lxxxvi]O. Palmer Robertson, Cristo dos Pactos, p. 68.

[lxxxvii] D.M. Lloyd-Jones, Vida no Espírito, p. 108.

[lxxxviii] João Calvino, Exposição de Efésios, (Ef. 5.33), p. 177.

[lxxxix] William Hendriksen, Exposição de Efésios, (Ef 5.23), p. 308.

[xc] D.M. Lloyd-Jones, Vida no Espírito, p. 108.

[xci] Admito que o texto de 2 Coríntios não esteja se referindo diretamente ao matrimônio, no entanto, temos de convir que este assunto ali está incluído (Vd. João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, especialmente p. 139).

[xcii] D.M. Lloyd-Jones, Vida no Espírito, p. 21.

[xciii] João Calvino, Exposição de Efésios, (Ef 6.1), p. 178.

[xciv] Vd. J. Calvino, As Institutas, II.8.38.

[xcv] Hendriksen faz uma lista de erros comuns cometidos pelos pais. Vd. William Hendriksen, Exposição de Efésios, (Ef. 6.4), p. 325-326.

[xcvi] Ocorre apenas duas vezes no NT., unicamente em Efésios: 5.29 e 6.4. A palavra apresenta a idéia de alimentar, sustentar, nutrir, educar. Calvino diz que este verbo “inquestionavelmente comunica a idéia de gentileza e afabilidade.” [J. Calvino, Exposição de Efésios, (Ef 6.4), p. 181].

[xcvii] Ocorre três vezes no NT.: 1Co 10.11; Ef. 6.4; Tt 3.10.

[xcviii] F. Selter, Exortar: In: NDITNT., Vol. II, p, 176.

[xcix] * At 20.31; Rm 15.14; 1Co 4.14; Cl 1.28; 3.16; 1Ts 5.12,14; 2Ts 3.15. A prática da admoestação deve ser natural entre os crentes visando a sua correção (Rm 15.4; 1Ts 5.14; 2Ts 3.15) e aperfeiçoamento (Cl 1.28); no entanto ela deve ser feita com amor (1Co 4.14; 2Ts 3.15) e sabedoria (Cl 3.16). Considerando que esta é também uma tarefa dos líderes da igreja, aqueles que se esforçam neste serviço devem ser estimados pela igreja (1Ts 5.12).

[c] Platão (427-347 aC) faz também a combinação de Paidei/a com Nouqesi/a, sendo traduzidas por “ensinamento e admoestação” (Platão, A República, 399b. p. 128). Vd. Richard C. Trench, Synonyms of the New Testament, 7ª ed. London, Macmillan and Co. 1871, § xxxii, p. 104-108.

[ci] Revista Veja, 17/02/82, nº 706, p. 6.

[cii] João Calvino, Exposição de Efésios, (Ef 6.4), p. 181.

[ciii] Currículo” é uma transliteração do latim “curriculum” que é empregado tardiamente, sendo derivado do verbo “currere”, “correr”. “Curriculum” tem o sentido próprio de “corrida”, “carreira”; um sentido particular de “luta de carros”, “corrida de carros”, “lugar onde se corre”, “hipódromo” e um sentido figurado de “campo”, “atalho”, “pequena carreira”, “corte”, “curso”.

A palavra currículo denota a compreensão que ele não é um fim em si mesmo; é apenas um meio para atingir determinado fim. [Vd. Hermisten M.P. Costa, A Propósito da Alteração do Currículo dos Seminários Presbiterianos, São Paulo, 1997, p. 8ss. (Trabalho não publicado)].

[civ]Platão, A República, 376e ss. p. 86ss.

[cv]A palavra “sofista” provém do grego Sofisth/j, que é derivada de Sofo/j (= “sábio”). Originariamente, ambas as palavras eram empregadas com uma conotação positiva. É importante lembrar que foram os próprios sofistas que se designaram assim.

[cvi] “Já desde o começo a finalidade do movimento educacional comandado pelos sofistas não era a educação do povo, mas a dos chefes. No fundo não era senão uma nova forma da educação dos nobres (…). Os sofistas dirigiam-se antes de mais nada a um escol, e só a ele. Era a eles que acorriam os que desejavam formar-se para a política e tornar-se um dia dirigentes do Estado.” (Werner Jaeger, Paidéia: A Formação do Homem Grego, 2ª ed. São Paulo, Martins Fontes, 1989, p. 236).

[cvii]Vd. Platão, Teeteto, 166c-167d; Sofista, 231d; Mênon, 91c-92b; Fedro, 267; Protágoras, 313c; 312a; Crátilo, 384b; Górgias, 337d; A República, 336b; 338c.

[cviii] Aristóteles, Ética a Nicômaco, São Paulo, Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. IV), 1973, V.2, 1130b 26-27. p. 324

[cix] A palavra hebraica (hfnf() (‘ãnãh) tem o sentido de “aflito”, “oprimido”, com o sentimento de impotência, consciente de que o seu resgate depende unicamente da misericórdia de Deus. Esta palavra é contrastada com o orgulho, que se julga poderoso para resolver todos os seus problemas, relegando Deus a uma posição secundária, sendo-Lhe indiferente.

hfnf( (‘ãnãh) apresenta também a idéia de ser humilhado por outra pessoa: (Gn 16.6; 34.2; Ex 26.6; Dt 22.24,29; Jz 19.24; 20.5).

[cx] Vd. J. Calvino, Exposição de Efésios, (6.5-7), p. 183.

[cxi] Vd. Platão, República, 369ss.; Aristóteles, Política, 1328b; Idem., Metafísica, I.1. Vd. também, a interpretação do conceito grego, feita por Ferrater Mora. (Trabajo: In: José Ferrater Mora, Diccionario de Filosofia, 5ª ed. Buenos Aires, Editorial Sudamericana, 1969, Vol. II, p. 819-822).

[cxii] Cf. Battista Mondin, O Homem, Quem é Ele?, São Paulo, Paulinas, 1980, p. 193.

[cxiii] Vd. J.I. Packer, Carpinteiro: In: NDITNT., Vol. I, p. 364-365; Paul Johnson, História dos Judeus, 2ª ed. Rio de Janeiro, Editora Imago, 1989, p. 174.

[cxiv]banausi/a, está associada à “vida e hábitos de um mecânico”; metaforicamente é aplicada à “mau gosto” e “vulgaridade”. (Vd. Liddell & Scott, Greek-English Lexicon, Oxford, Clarendon Press, 1935, p. 128b).

[cxv] Vd. Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, São Paulo, Pioneira, 1967, p. 52ss.

[cxvi] H. Pirenne, História Econômica e Social da Idade Média, 6ª ed. São Paulo, Mestre Jou, 1982, p. 19.

[cxvii] André Biéler, A Força Oculta dos Protestantes, São Paulo, Editora Cultura Cristã, 1999, p. 118. Vd. Jacques Le Goff, Mercadores e Banqueiros da Idade Média, São Paulo, Martins Fontes, 1991, passim.

[cxviii] Vejam-se, Max Weber, A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, p. 52(e notas correspondentes); André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 628; Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil, 21ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1989, p. 114.

[cxix]É interessante notar que em 1513, N. Maquiavel (1469-1527), na sua obra O Príncipe, dedicada a Lorenzo di Medicis, diz: “… um príncipe deve gastar pouco para não ser obrigado a roubar seus súditos; para poder defender-se; para não se empobrecer, tornando-se desprezível; para não ser forçado a tornar-se rapace; e pouco cuidado lhe dê a pecha de miserável; pois esse é um dos defeitos que lhe dão a possibilidade de bem reinar.” [N. Maquiavel, O Príncipe, São Paulo, Abril Cultural, (Os Pensadores, Vol. IX), 1973, p. 72]. (grifos meus).

[cxx] Vd. por exemplo, J. Calvino, As Institutas, III.7.5-6; III.10.4-5; Idem., Exposição de 2 Coríntios, (2Co 8), p. 165ss.; André Biéler, O Pensamento Econômico e Social de Calvino, p. 643. (Veja-se, também, Hermisten M.P. Costa, As Questões Sociais e a Teologia Contemporânea, São Paulo, 1986. Quando à ação prática dos conceitos de Calvino em Genebra, Vd. Alderi Souza de Matos, João Calvino e o Diaconato em Genebra: In: Fides Reformata, 2/2(1997), p. 61-68).

A Igreja Católica sempre condenou o lucro, ainda que a sua prática não se harmonizasse com a sua teoria, sendo ela mesma, extremamente rica. “O empréstimo a juros (…) sempre foi proibido ao clero; a Igreja conseguiu, a partir do século IX, que se tornasse proibida também aos leigos, e reservou o castigo desse delito à jurisdição de seus tribunais.” (H. Pirenne, História Econômica e Social da Idade Média, p. 19).

Pirenne (1862-1935) continua:

“É evidente que a teoria dista muito da prática: os próprios mosteiros, amiúde, infringiram os preceitos da Igreja. Não obstante, esta impregnou tão profundamente o mundo com seu espírito, que serão necessários vários séculos para que se admitam as novas práticas que o renascimento econômico do futuro exigirá, e para que se aceitem, sem reservas mentais, a legitimidade dos lucros comerciais, da valorização do capital e dos empréstimos com juros.” (Ibidem., p. 19-20).(Vd. uma anedota bastante ilustrativa do conflito da Igreja, In: Pirenne, História Econômica e Social da Idade Média, p. 32-33).

Aldo Janotti, comentando a respeito da superioridade intelectual e riqueza da Igreja Católica na Idade Média, observa que:

“A preponderância econômica se manifestava tanto através da riqueza agrária quanto da monetária: possuía a Igreja inúmeros domínios, superiores em extensão aos da aristocracia laica, como também em organização, pois só ela tinha homens habilitados para estabelecer polípticos, ter registros de contas, calcular entradas e saídas e, por conseqüência, poder equilibrá-las.” (Aldo Janotti, Origens da Universidade: A Singularidade do Caso Português, 2ª ed. São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1992, p. 31).

[cxxi] João Calvino, Exposição de 2 Coríntios, (2Co 8.15), p. 177. Vd. também, João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. I, p. 45.

[cxxii] “Confesso, deveras, que não sou pobre; pois não desejo mais além daquilo que possuo.” (João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. I, p. 46).

[cxxiii] Juan Calvino, El Uso Adecuado de la Afliccion: In Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan, T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 19), p. 227.

[cxxiv] “…. a glória de Deus deve resplandecer sempre e nitidamente em todos os dons com os quais porventura Deus se agrade em abençoar-nos e em adornar-nos. De sorte que podemos considerar-nos ricos e felizes nele, e em nenhuma outra fonte.” [João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 48.3), p. 356].

[cxxv] João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 1, (Sl 17.14), p. 346.

[cxxvi] João Calvino, O Livro dos Salmos, Vol. 2, (Sl 56.12), p. 504.

[cxxvii]William Barclay, El Nuevo Testamento Comentado, Buenos Aires, La Aurora, 1973, Vol. 11, p. 176.

[HMPC1](Ver sobre trabalho in Palmer, Cristo dos Pactos, p. 72ss.


Sobre o autor: O Rev. Hermisten Maia Pereira da Costa é pastor da I.P. Ebenézer, Osasco-SP, e professor de Teologia Sistemática e Filosofia no Seminário Presbiteriano Rev. José Manoel da Conceição, São Paulo, Capital.

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